Irã apresenta lista de exigências aos EUA para reabrir estreito de Hormuz

Um funcionário iraniano de alto escalão da área de segurança nacional apresentou neste sábado (8) uma ampla lista de exigências que, segundo ele, os Estados Unidos terão de cumprir antes que o estreito de Hormuz possa ser reaberto ao tráfego marítimo, lançando dúvidas sobre o destino dessa rota comercial estratégica.

Mohammad Bagher Zolghadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, divulgou um comunicado veiculado pela mídia estatal no qual enumerou várias condições para a reabertura do estreito. Ele exigiu que os EUA suspendam o bloqueio naval e as sanções contra o Irã, retirem as forças militares americanas das proximidades do país, paguem reparações de guerra e liberem ativos iranianos congelados, além de encerrarem os ataques aos aliados do Irã na região e as ameaças contra o país.

É improvável que o governo Trump aceite essas exigências. Um cessar-fogo anterior entre Irã e EUA, acertado em junho, previa que as sanções só seriam totalmente suspensas caso houvesse um acordo definitivo sobre o programa nuclear iraniano. Autoridades americanas afirmaram que Teerã só poderia ter acesso aos recursos congelados se primeiro se comprometesse a abrir mão de seu urânio altamente enriquecido.

O comunicado de Zolghadr foi divulgado enquanto Irã e Omã negociam um acordo sobre a futura gestão do estreito de Hormuz, situado entre os dois países. O Irã bloqueou o estreito em retaliação aos ataques sofridos dos EUA e de Israel em fevereiro.

A lista de exigências de Zolghadr frustrou as expectativas de que um acordo com Omã permitiria a retomada do comércio pelo estreito e aliviaria os preços globais da energia. É provável que isso pressione o presidente Donald Trump a considerar as condições iranianas caso queira reduzir os preços para os consumidores americanos, que representam um risco para os republicanos antes das eleições legislativas de meio de mandato em novembro.

Mesmo antes do comunicado de Zolghadr, autoridades iranianas já haviam dado a entender neste sábado que a reabertura do estreito não era iminente. Hossein Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária do Irã, afirmou que a reabertura “não está condicionada às negociações entre Irã e Omã”.

Em declarações veiculadas pela Tasnim, agência de notícias iraniana ligada à Guarda, Mohebbi disse que isso dependeria “da plena aceitação das condições do Irã pelos EUA”. Ele não especificou quais seriam essas condições, limitando-se a afirmar que Washington não deve interferir nas negociações em andamento do Irã com Omã ou com outros países.

Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores iraniano, afirmou no sábado que Irã e Omã estavam “muito próximos” de um acordo, segundo a Tasnim.

“No entanto, a reabertura do estreito de Hormuz está condicionada a outros requisitos, entre eles a indenização, por parte dos EUA, pelas violações do Memorando de Islamabad”, afirmou Araghchi, segundo a agência, referindo-se ao acordo de cessar-fogo assinado por Irã e EUA em junho.

O acordo de junho —um “memorando de entendimento” mediado por negociadores paquistaneses em Islamabad— previa a abertura do estreito de Hormuz e a suspensão temporária das sanções sobre o petróleo iraniano. A linguagem do acordo, porém, era vaga, e EUA e Irã divergiam quanto à sua interpretação.

Os EUA apoiaram uma rota ao sul para os navios, próxima à costa de Omã e fora das águas iranianas, e o Irã reagiu advertindo e atacando embarcações que utilizaram esse trajeto. O cessar-fogo logo entrou em colapso, e os EUA restabeleceram o bloqueio naval aos portos iranianos.

“Os americanos buscavam estabelecer novas rotas pelo estreito de Hormuz e, apesar das advertências emitidas por nosso país, tentaram enfraquecer a gestão iraniana do estreito”, disse Araghchi. “Portanto, qualquer violação do memorando de entendimento ou da gestão do estreito de Hormuz pelo Irã é absolutamente inaceitável para a República Islâmica do Irã.”

Araghchi afirmou que Irã e Omã discutiam uma rota temporária pelo estreito e que as forças militares dos dois países negociavam os detalhes. Autoridades a par do acordo em elaboração disseram que ele poderia formalizar algumas das reivindicações do Irã de controle sobre a navegação na via marítima.

Raz Zimmt, especialista em Irã do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, de pesquisa israelense, afirmou que as declarações de Mohebbi e Araghchi refletiam a visão iraniana de que as negociações com Omã se destinavam, “no máximo”, a definir como a via marítima será reaberta no futuro.

Mesmo que Irã e Omã cheguem a um acordo sobre os detalhes relativos ao estreito, “está claro que Teerã não concordará em implementá-los sem que os EUA voltem a cumprir os compromissos assumidos no memorando, incluindo a suspensão do bloqueio naval e a retomada do processo de alívio das sanções”, escreveu Zimmt nas redes sociais.

Neste sábado, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes afirmou que um ataque iraniano havia atingido um navio-tanque pertencente à estatal Abu Dhabi National Oil enquanto ele atravessava o estreito de Hormuz. A empresa informou na sexta-feira que pelo menos 15 de suas embarcações haviam sido atacadas na via marítima desde o início do conflito, resultando na morte de um tripulante e em ferimentos em outros 20.

Pouco mais de uma dúzia de navios por dia atravessou o estreito na última semana, segundo a Kpler, empresa de dados marítimos. Antes da guerra, uma média de 130 embarcações utilizava a rota diariamente.

Para evitar a detecção pelas forças iranianas ou americanas que impõem bloqueios no estreito, alguns navios desligaram os transponders que transmitem sua localização, dificultando a obtenção de uma contagem precisa das travessias.

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