Governo Trump quer encontrar ‘Delcy Rodríguez cubana’ antes de operação contra Raúl Castro

O governo Donald Trump vem procurando uma autoridade cubana, na ativa ou aposentada, que possa ser convencida a assumir o poder em Havana, enquanto os Estados Unidos intensificam sua campanha de pressão contra a ilha, segundo autoridades em Washington. O plano se aproxima mais de uma alteração do regime do que de uma mudança de regime.

O governo pressionou suas agências de inteligência a identificar alguém com o perfil de Delcy Rodríguez, que se tornou presidente interina da Venezuela depois que forças americanas capturaram o líder anterior, Nicolás Maduro, em janeiro.

Autoridades americanas viam Delcy como uma pessoa pragmática, capaz de assumir o poder sem sobressaltos e disposta a trabalhar em estreita colaboração com os EUA. Alguns integrantes do governo acreditam que seja possível encontrar em Cuba uma liderança nos moldes da venezuelana.

Mas as agências de inteligência dos EUA avaliaram que Cuba se parece menos com a Venezuela e mais com o Irã, segundo pessoas informadas sobre os relatórios de inteligência.

Há poucas figuras pragmáticas em condições de assumir o poder caso forças americanas capturem Raúl Castro, o ex-dirigente de Cuba que ainda exerce enorme influência política, ou que de alguma forma afastem a atual liderança, segundo várias autoridades dos EUA.

Em vez disso, as autoridades às margens do poder em Cuba, assim como suas equivalentes iranianas, representam facções mais linha-dura.

O governo Trump tem oscilado entre a intenção de trabalhar com o regime comunista de Cuba e a elaboração de planos para derrubá-lo. Nas últimas semanas, autoridades americanas apresentaram uma lista de exigências aos líderes cubanos, oferecendo incentivos caso Cuba fizesse avanços.

O governo Trump quer que Cuba liberalize sua economia, abra espaço para empresas americanas, compre petróleo dos EUA e expulse agentes de inteligência russos e chineses.

Poucos detalhes são conhecidos sobre os incentivos oferecidos por Washington, mas alguns envolvem o fornecimento de mais ajuda humanitária e o abrandamento das sanções americanas impostas à economia cubana.

O regime cubano não parece disposto, ao menos por enquanto, a fazer esse tipo de concessão, o que confere urgência aos esforços para identificar lideranças alternativas. Cuba anunciou grandes mudanças econômicas, permitindo maior participação da iniciativa privada, mas as medidas parecem ter ficado aquém do que o governo Trump exigiu. Autoridades de Cuba não responderam a um pedido de comentário.

A Casa Branca se recusou a comentar. Mas uma autoridade do governo afirmou que, embora os Estados Unidos estejam prontos para abrir um novo capítulo com Cuba, o regime em Havana está impedindo um futuro melhor.

Diante da escassez de figuras pragmáticas, não está claro quem a Casa Branca poderia preferir como liderança alternativa. O regime cubano parece apoiar Oscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-bisneto de Fidel Castro, como possível sucessor. Recentemente, ele passou a aparecer mais na televisão estatal e em comunicados oficiais, chegando até a conceder uma rara entrevista à imprensa internacional.

Mas Pérez-Oliva Fraga quase certamente seria inaceitável para os EUA. O governo Trump talvez se mostrasse receptivo a outro parente de Fidel: Raúl G. Rodríguez Castro, conhecido como “Raulito” ou “El Cangrejo” (o Caranguejo), neto de Raúl Castro. Durante muito tempo, ele atuou como guarda-costas do ex-presidente, mas nunca ocupou um cargo público.

O atual ministro do Interior, Lázaro Alberto Álvarez Casas, também pode ser aceitável para as autoridades americanas.

Quando o diretor da CIA, John Ratcliffe, visitou Cuba neste ano, reuniu-se com Rodríguez Castro e Álvarez Casas. A CIA criou secretamente uma força-tarefa contra Cuba, sinal de que o governo Trump colocou em andamento planos para uma campanha de pressão mais coordenada contra Havana, com o objetivo de implementar as mudanças exigidas pelo presidente Trump na ilha comunista.

Autoridades americanas e israelenses cogitaram um plano de mudança de regime para o Irã quando lançaram sua guerra conjunta, há mais de cinco meses. Na época, Trump estava obcecado em reproduzir no Irã o modelo venezuelano, acreditando que seu governo poderia encontrar uma liderança disposta a trabalhar com os EUA e em condições de assumir o poder após um ataque destinado a decapitar o regime teocrático.

Algumas autoridades iranianas identificadas por autoridades americanas como mais pragmáticas foram mortas inadvertidamente nos ataques iniciais da guerra, cujo objetivo era eliminar o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Um plano israelense, que contava com o apoio de alguns integrantes do governo Trump, pretendia levar Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente do Irã, ao poder. Ahmadinejad não é um moderado —enquanto estava no cargo, defendeu a destruição de Israel. Mas, após deixar a Presidência, tornou-se cada vez mais crítico dos líderes religiosos do Irã. Israel começou a se aproximar dele e a considerá-lo para liderar um novo regime iraniano.

Mas o plano rapidamente deu errado. Ahmadinejad se desencantou com a iniciativa israelense e acabou deixando uma casa segura para onde agentes da inteligência de Israel o haviam levado.

Em retrospecto, a estratégia americana e israelense de mudança de regime no Irã pareceu muito menos planejada do que a operação para capturar Maduro na Venezuela. Os planos exatos dos EUA para Cuba continuam pouco claros.

Washington impôs um bloqueio total a Cuba, levando a ilha a uma crise à medida que os suprimentos de combustível estão quase esgotados.

Também não está claro até onde o governo Trump poderia ir para forçar uma mudança de liderança. O Departamento de Justiça recentemente tornou pública uma acusação formal contra Raúl Castro —uma medida similar contra Maduro foi utilizada para justificar a operação militar que resultou na captura do ditador venezuelano.

Mas a remoção de Maduro levou Rodríguez, então vice-presidente, ao poder. Raúl, por outro lado, tem 95 anos, não ocupa nenhum cargo oficial, e sua captura ou prisão não provocaria, por si só, uma troca de liderança.

Nos meses seguintes à operação contra Maduro, Cuba adotou medidas defensivas para dificultar uma incursão das forças americanas destinada a capturar ou matar Raúl ou o atual presidente, Miguel Díaz-Canel, segundo algumas autoridades americanas.

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