A crise alimentar em Cuba levou milhares de pessoas a transformarem lixões e contêineres de lixo em fonte de sobrevivência diária. O cenário, antes restrito a casos isolados, tornou-se comum em cidades como Havana, Santiago de Cuba, Holguín, Santa Clara e Guantánamo, onde moradores disputam restos de alimentos descartados por restaurantes, residências e até órgãos estatais.
O analista e historiador havaneiro Boris González Arenas atribui o agravamento da situação às decisões do regime cubano relacionadas ao abastecimento estatal. Em entrevista ao portal Martí Noticias, financiado pelo governo dos EUA, ele afirmou que a retirada gradual dos alimentos distribuídos pelo Estado “condenou a população à fome”.
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“Foi verdadeiramente um crime”, disse González Arenas. “Em um país onde o Estado monopoliza a produção e o comércio de alimentos, retirar os produtos entregues à população levou Cuba a uma situação de fome ainda maior.”
Segundo o analista, o fenômeno deixou de atingir apenas grupos marginalizados. “Há um exército de pessoas à procura de comida no lixo”, relatou. “Em sua maioria são homens, mas evidentemente você vê mulheres e homens jovens, homens e mulheres idosos; vê uma população negra muito acentuada que procura no lixo, embora também haja brancos, e isso ocorre a toda hora, todos os dias.”
Em Holguín, um dos símbolos da deterioração social é o antigo parque infantil Los Caballitos. O espaço, antes frequentado por crianças, converteu-se em ponto de encontro de pessoas que procuram restos de comida em meio ao lixo urbano.
O jornalista independente Julio César Álvarez Marrero afirmou que algumas famílias passaram a viver próximas a aterros improvisados. “Há pessoas que não apenas procuram comida no lixo, mas vivem ali mesmo, dormem e cozinham o que encontram”, disse.


Álvarez Marrero também descreveu a situação na região de Cuatro Caminos Guajabal, onde caminhões de órgãos públicos descartariam alimentos deteriorados. “As pessoas consomem esses produtos e até os revendem”, afirmou. Para ele, a comercialização de comida em estado de decomposição “é quase um assassinato”.
Em Santa Clara, o comunicador Guillermo del Sol relatou que moradores em situação de miséria aguardam o descarte de resíduos de restaurantes e hospedagens para buscar algo que possa ser consumido. “Isso virou um problema nacional”, declarou.
Já em Guantánamo, ativistas afirmam que a escassez chegou a um nível ainda mais severo. O ativista Níober García Fournier disse que “nem no lixo há comida”, porque a população evita desperdiçar qualquer alimento disponível.
Regime socialista nega situação de miséria em Cuba
A deterioração econômica ocorre em meio à inflação elevada e à perda do poder de compra da população. De acordo com relatos de opositores e jornalistas independentes, salários e aposentadorias equivalem a poucos dólares mensais no câmbio informal, enquanto uma cesta básica pode ultrapassar US$ 200.
Com prateleiras vazias em estabelecimentos estatais e preços considerados inacessíveis no mercado privado, revirar o lixo deixou de ser exceção para se tornar rotina em diversas regiões da ilha.
A resposta do regime socialista cubano também gerou críticas. Autoridades ligadas ao Ministério do Trabalho e Seguridade Social negaram, em ocasiões anteriores, a existência de mendigos ou pessoas que vivem em extrema pobreza no país. Integrantes da sociedade civil contestam a versão oficial e afirmam que o avanço da mendicância expõe o colapso econômico e social enfrentado pela população cubana.

