No dia 28 de abril dezenas de índios foram mortos em Milagres: o massacre aos Kariri-xocó na Aldeia da Cachorra Morta

Carlos César Pereira de Sousa

(Professor da E.E.M.T.I. Dona Antônia Lindalva de Morais)

            Na madrugada de 28 de abril de 1867 setenta e dois jagunços armados e a serviço do latifundiário José Inácio da Silva, partiu da Vila de Milagres com destino a Serra da Cachorra Morta, nesta localidade havia sido instalada sob as ordens do Ministério da Justiça do Império e do governo da Província do Ceará uma aldeia indígena para abrigar os “últimos” índios que vagavam seminômades pelas matas da Chapada do Araripe.

Representação de um indígena Kariri-Xocó (Desenho da professora Ana Ivyna Leite Lima)

            Os jagunços comandados pelo fazendeiro José Inácio da Silva subiram a serra e fortemente armados de bacamartes e pistolas entraram na Aldeia da Cachorra Morta ainda antes de amanhecer o dia. O objetivo declarado dos invasores era exterminar os indígenas Kariri-Xocó que haviam ganho o direito de habitar aquelas terras e tomar todas as propriedades dos aldeados entregando-as aos fazendeiros locais.

            Os invasores foram muito bem-sucedidos. Ao chegar na aldeia encontraram apenas as mulheres, as crianças e os idosos, pois os chefes dos índios e os demais homens do aldeamento encontravam-se longe, numa caçada. Apenas um índio jovem fora deixado tomando conta de todos, este era o indígena Mariano que foi logo feito prisioneiro pelos invasores.

            A entrada dos jagunços na Aldeia da Cachorra Morta foi violenta. Munidos de armas de armas de fogo os jagunços comandados pelo pecuarista José Inácio da Silva, mataram mulheres, crianças e idosos, cometeram estupros e provocaram abortamentos nas indígenas grávidas. Lançaram também seus cães sobre as indígenas que fugiam desesperadas com seus filhos para se esconderem nas matas e finalmente para completar o massacre incendiaram todo aldeamento.

            Ainda não satisfeitos com o que haviam perpetrado contra a aldeia, os invasores levaram o índio Mariano para um local próximo e o amarraram num tronco esperando que seus parentes e amigos ao retornarem da caçada viessem resgatá-lo. Ao amanhecer os indígenas que estavam ausentes do aldeamento retornaram e verificando a destruição de sua aldeia determinaram juntar-se aos sobreviventes escondidos nas matas e indicaram alguns para irem ao resgate de Mariano.

            Ao tentarem libertar o índio Mariano, três indígenas foram mortos a tiros pelos jagunços emboscados nas moitas próximas de onde Mariano se encontrava aprisionado. Um dos atacantes, isto é, jagunço de José Inácio da Silva também foi morto, mas por fogo dos seus próprios parceiros. Nos dias que se sucederam ao massacre da Aldeia da Cachorra Morta os indígenas Kariri-Xocó ficaram escondidos na mata temendo serem mortos pelos fazendeiros de Milagres ou aprisionados pelos seus jagunços, o medo de ser morto ou escravizado fez com que dezenas deles decidissem atravessar a Serra do Salgadinho e migar para o Sertão do Pajeú em Pernambuco.

            A aldeia dos Kariri-Xocó foi instalada no sul do Ceará no ano de 1845, nesta época o Povoado de Milagres estava subjugado a comarca de Jardim e politicamente ligado a Câmara Municipal do Crato. Desde a década de 1830 o governo imperial vinha tentando juntar os indígenas Kariri que ainda viviam nas matas da Chapada do Araripe com outros grupos de índios que habitavam os limites das províncias do Ceará, Paraíba e Pernambuco.

            No começo do século XIX, o padre capuchinho frei Vital de Frascarollo esteve na região do Cariri Oriental, Barra do Jardim e na parte leste da Chapada do Araripe aldeando os indígenas que se encontravam dispersos pela zona. A reunião desses vários índios dispersos formaria o grupo indígena Kariri-Xocó. Na década de 1820, esses Kariri-Xocó viviam como seminômades na Chapada do Araripe, mas constantemente eram atacados e escravizados pelos fazendeiros locais. Muitos foram os Kariri-Xocó que caíram prisioneiros sob os dentes dos cachorros dos proprietários rurais do Cariri Cearense.

            Em 1838, o cientista escocês George Gardner esteve no Cariri e escreveu sobre os indígenas Kariri em seu livro. Gardner informa que tais indígenas viviam na região do Araripe rapinando os gados dos fazendeiros locais que os perseguia para evitar a destruição de suas fazendas. Mas o viajante escocês não questiona o fato de os indígenas assim agirem porque esses mesmos fazendeiros haviam usurpado as terras deles no século XVIII.

            Na tentativa de impedir que os Kariri-Xocó continuassem “atacando” as fazendas locais, o governo da Província do Ceará em 1839 dirigiu ao Ministério da Justiça um relatório informando que os índios se recusavam a serem devidamente “civilizados”. Em 1845, a criação do Diretório dos Índios pelo governo imperial determinou que fosse instalado um aldeamento indígena na comarca de Jardim. O cuidado dos indígenas aldeados na região do Cariri Oriental foi entregue ao latifundiário jardinense coronel Simplício que era um inimigo ferrenho dos índios.

            Aldeados em 1847, os Kariri-Xocó logo se viram transformados em escravos e aos poucos eram exterminados pelos proprietários locais. Assim, abandonaram a aldeia e voltaram a sua condição nômade. Mais uma vez os conflitos com os fazendeiros do Cariri chegaram ao governo do Ceará que em 1854 determinou mais uma vez a reunião desses indígenas num só local.

            Para evitar novas fugas dos Kariri-Xocó e impedir que eles abandonassem a aldeia, os indígenas foram colocados sob a guarda de um outro fazendeiro de Jardim, o major Manoel José de Sousa, que recebeu do governo imperial a promessa de um valor anual a ser pago para que este assumisse total responsabilidade sobre os indígenas Kariri-Xocó. Manoel José de Sousa instalou-se com os índios nas terras da Serra da Cachorra Morta, região situada na parte mais a sudoeste da Vila de Jardim.

            A Serra da Cachorra Morta (nome dados na época em virtude de uma excelente cadela de caça dos indígenas ter sido morta nas matas que circundavam a Vila Milagres), era uma área de terras banhadas por riachos e fontes de água perene, que se estendia desde a Serra do Salgadinho na divisa entre Pernambuco, Paraíba e Ceará indo até a Serra de Santa Catarina nas proximidades de Aurora e Missão Velha. Atualmente nas terras da antiga Serra da Cachorra Morta está a Serra do Ouricuri, as comunidades rurais de Ipueiras (Barro), Barreiros, Cajuí, Serra Brava (Milagres), São Félix, Anauá (Mauriti).

Recorte do mapa da Província do Ceará feito pelo médico Pedro Thebérge (1859), em destaque podemos observar a Serra da Cachorra Morta onde se localizava a aldeia indígena de mesmo nome.

            Em 1859, a Comissão Botânica e Científica coordenada por Francisco Freire Alemão chegou ao Cariri. Freire Alemão hospedou-se na casa do fazendeiro Sr. Franklin na Vila de Milagres e nesta residência se informou sobre a existência da Aldeia da Cachorra Morta. Informaram ao botânico Freire Alemão que esses indígenas Kariri-Xocó eram os últimos restos de uma numerosa nação indígena que existiu há algum tempo no sul Do Ceará. O poeta e antropólogo Gonçalves Dias decidiu visitar a aldeia e partindo da Vila de Milagres subiu até a Serra da Cachorra Morta para conhecer os “últimos” índios do Ceará.

            O major Manoel Jesus de Sousa procurou proteger os indígenas como pode. Construiu na localidade uma capela para catequizar os indígenas, tentou alfabetizá-los e os incentivou a prática da agricultura e pecuária. Os Kariri-Xocó passaram então viver praticamente como sedentários na aldeia. Mas logo os atritos com os proprietários rurais de Milagres voltariam a ocorrer.

            Criadores de gado da Vila de Milagres começaram a cobiçar as terras dos indígenas para soltar seu gado e um dos fazendeiros mais cobiçosos das terras da Serra da Cachorra Morta era o pecuarista José Inácio da Silva. Os criadores de gado começaram a soltar os bois e vacas dentro das roças dos indígenas e este ajudados pelo major Manoel José de Sousa protestaram junto a Câmara de Vereadores de Milagres e ao delegado local, Manoel Jesus da Conceição Cunha.

            Pressionados, os vereadores criaram uma postura municipal em que estabelecia uma multa de cinco mil réis para quem soltasse o gado nas terras dos índios. Tal lei de nada valeu, pois José Inácio da Silva continuou soltando o gado nas terras dos Kariri-Xocó. Em 1862, uma nova tragédia se abateu sobre a aldeia, a epidemia de cólera morbo acometeu muitos indígenas que foram a óbito, até mesmo o major Manoel Jesus de Sousa foi vitimado pela doença. Para tentar salvar os indígenas o governo do Ceará enviou para Milagres o médico Pedro Thebérge que descreveu em seu relatório a terrível situação de miséria e violência a qual estavam submetidos os Kariri-Xocó da Aldeia da Cachorra Morta.

            Para substituir o major Manoel José de Sousa como diretor dos índios em Milagres foi escolhido seu filho Manoel Fortunato de Sousa. Em 1865, a situação dos Kariri-Xocó em Milagres estava horrível. Suas terras estavam sendo invadidas pelos fazendeiros e suas roças destruídas pelos gados dos criadores locais. Na Vila de Milagres havia uma verdadeira campanha contra os indígenas. Espalhou-se a falsa notícia de que os indígenas estavam roubando crianças e estuprando as mulheres, além disso, acusava-se os indígenas de estarem planejando a invasão da Vila de Milagres, pois os fazendeiros divulgaram a história de que esses indígenas eram selvagens e tinham armas para entrar na vila e matar todos.

            José Inácio da Silva conseguiu apoio dos proprietários locais e convenceu o delegado Manoel Jesus da Conceição Cunha a permitir uma busca por armamentos na aldeia, pois segundo José Inácio os índios estavam matando o seu gado e de outros criadores. O delegado autorizou a diligência e na madrugada de 28 de abril de 1867 houve o ataque que desencadeou o massacre da Aldeia da Cachorra Morta.

Dona Dionísia Severo em sua residência no Sítio Pau dos Ferros, Milagres-CE. Dona Dionísia é autodeclarada indígena e descende dos Kariri que foram atacados em 28 de abril de 1867 pelos latifundiários do Vale do Riacho dos Porcos.

            Na década de 1870, os indígenas Kariri-Xocó tentaram recuperar suas terras, mas nada obtiveram do governo da Província do Ceará que decretou não existir mais índios no Ceará. Ainda em 1881, os Kariri-Xocó foram até Fortaleza pedir uma audiência com o presidente da província para solicitar a devolução de suas terras em Milagres, mas foram tratados pelo governo como retirantes da seca e enviados para um campo de concentração nas proximidades da capital, aqueles que ficaram pelo Vale do Riacho dos Porcos precisaram esconder suas identidades de ancestralidade indígena para sobreviverem e não sofrerem as violências dos latifundiários da região.

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