Crise entre Brasil e EUA rompe padrão histórico, diz pesquisador

A atual crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos representa o momento mais delicado da relação bilateral em mais de dois séculos de história, afirma Lucas de Souza Martins, pesquisador e professor da Temple University.

Para o historiador, a sucessão de atritos entre os governos rompe uma tradição da diplomacia brasileira de tratar crises como episódios pontuais, sem comprometer o conjunto da relação entre os Estados.

Na avaliação de Martins, a decisão do governo americano de revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, simboliza esse novo momento e marca um episódio sem precedentes na história das relações entre os dois países.

“Este é o momento mais delicado em mais de 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos”, afirma. “Na cultura diplomática brasileira existe a ideia de encapsular crises. Elas se referem a temas específicos e não afetam a relação entre os Estados. O que vemos agora rompe esse padrão.”

O pesquisador lembra que outros momentos de tensão acabaram sendo superados sem comprometer de forma duradoura o relacionamento bilateral.

Entre eles, cita a crise provocada pelas denúncias de espionagem americana contra a então presidente Dilma Rousseff e a reaproximação com o governo de Barack Obama. Em 2015, Dilma esteve na Casa Branca em uma visita considerada um marco na superação do episódio.

O pesquisador também relembra os atritos entre o governo do democrata Jimmy Carter e a ditadura de Ernesto Geisel relacionados às políticas de direitos humanos e ao programa nuclear brasileiro. “Em todos esses momentos, os governos encontraram maneiras de reduzir as divergências e reconstruir o diálogo. Agora, acontece algo diferente.”

Para Martins, parte da deterioração da relação está ligada ao projeto político do governo Donald Trump para a América Latina. Segundo ele, a Casa Branca enxerga o Brasil como um país estratégico para consolidar sua influência na região.

“O Brasil é percebido pela Casa Branca como a joia da coroa”, afirma. “É a principal economia da América do Sul, o país mais populoso da região e uma das maiores democracias do continente.”

Na avaliação do pesquisador, os sinais desse interesse já haviam sido dados pelo próprio governo americano. Ele cita declarações públicas de integrantes da gestão Trump, manifestações do presidente nas redes sociais e documentos que defendem uma política de maior influência americana sobre a América Latina.

“Não é uma questão de discutir se existe interesse. Esse interesse foi manifestado publicamente. Existe uma estratégia para aproximar a região da agenda política do governo Trump.”

Segundo Martins, a tentativa frustrada de envio de representantes americanos ao Brasil e os recentes episódios diplomáticos reforçam a estratégia de maior protagonismo do Departamento de Estado na condução da relação com Brasília.

Na avaliação dele, um dos principais responsáveis por essa postura é o secretário de Estado, Marco Rubio. “É ele quem faz o enfrentamento direto com o Brasil. Quando surgem acusações de falta de boa vontade nas negociações ou críticas ao presidente Lula, quem aparece é o secretário de Estado.”

Apesar da gravidade da crise, Martins avalia que o cenário pode mudar nos próximos anos em razão da política doméstica americana. Ele cita a baixa popularidade de Trump e afirma que o republicano chega às eleições legislativas de meio de mandato, as chamadas midterms, em posição mais frágil do que a de outros presidentes no mesmo período do mandato.

Também diz que, embora seja historicamente comum que presidentes percam cadeiras no Congresso nas eleições de meio de mandato, eles não costumam chegar às urnas com índices de aprovação tão baixos.

Caso os republicanos percam força no Congresso, argumenta, a política externa da Casa Branca também poderá passar por ajustes.

“Se esse governo se fragiliza e Marco Rubio também perde força política, existe espaço para um reposicionamento. A estratégia de enfrentamento ostensivo ao Brasil tende a perder sustentação.”

Para o pesquisador, a política externa do governo Trump também enfrenta resistência porque a principal preocupação do eleitor americano continua sendo a economia. Segundo ele, parte do eleitorado não vê resultados concretos da política tarifária para reduzir a inflação ou melhorar as condições de vida da população.

“A questão central para o eleitor médio não é a política externa. É a economia. Se essa política econômica não melhora a vida das pessoas, ela acaba fragilizando também as figuras que a representam.”

Martins também avalia que a resposta do governo Lula possui um componente político interno. Segundo ele, o confronto com Washington fortaleceu o governo junto ao eleitorado brasileiro em um momento de desgaste doméstico. “O governo se utiliza dessa crise para se fortalecer eleitoralmente em casa”, afirma.

Ainda assim, ele considera que essa postura não representa a tradição diplomática do presidente brasileiro. “O histórico do presidente Lula sempre foi de conciliação e de busca por relações pragmáticas. Houve sinais claros de tentativa de aproximação com Trump, mas, diante da falta de abertura do governo americano, o Planalto passou a tratar essa crise também sob uma lógica eleitoral.”

Para o pesquisador, essa dinâmica tende a perder força após os processos eleitorais dos dois países. “Essa hostilidade tem relação direta com o momento político. Depois das eleições, tanto os EUA quanto o Brasil terão incentivos para reconstruir uma relação mais pragmática.”

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