Brasil é país fraco e não pode ajudar a resolver guerra no Irã, diz professor ligado à Guarda Revolucionária

Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerã que é muito próximo da Guarda Revolucionária e da ala linha-dura do governo do Irã, usa palavras duras para se referir ao Brasil e a seu papel na guerra em curso. Segundo ele, o Brasil é um país fraco, e o Irã não tem nenhuma expectativa de que possa fazer algo para ajudar em uma solução para o conflito.

Seu pai, Alireza Marandi, foi médico da família do aiatolá Ali Khamenei, morto em ataques no início da guerra iniciada por Estados Unidos e Israel. O professor lutou na guerra Irã-Iraque (1980-1988) e entrou aos 16 anos na Basij, grupo paramilitar voluntário subordinado à Guarda Revolucionária.

“Não acho que o Brasil possa fazer muito. Não conseguiu impedir os EUA de ocuparem a Venezuela. O Brasil é um país fraco, não é como o Irã”, disse Marandi à Folha. “Eu esperaria que o Brasil fosse diferente. Mas os EUA podem invadir Cuba e o Brasil não fará nada. Não temos expectativas sobre o Brasil.”

Qual será o futuro status do estreito de Hormuz?

É bastante claro que o Irã tem o controle do estreito e o manterá por tempo indefinido. Essa foi uma decisão tomada e não há como voltar atrás.

Quando o senhor diz “controle”, o que quer dizer?

Quando você está no controle, você faz as regras, e se houver países hostis ao Irã, eles serão tratados de forma diferente dos países que não são hostis. Mas não se trata apenas de pedágios. Trata-se da nossa segurança.

O Irã tem experiência com guerra e destruição. Tivemos meninas massacradas em uma escola, sem nenhum arrependimento, nenhum pedido de desculpas do regime Trump. Estamos determinados a não deixar isso acontecer novamente. Uma forma de fazer isso é controlar o estreito para que o golfo Pérsico não se torne um reduto militar contra o Irã.

Em depoimento recente ao Congresso americano, o almirante Brad Cooper afirmou que o ataque em 28 de fevereiro à escola em Minab, que matou 175 pessoas, ainda está sob investigação, apesar de inúmeras entidades independentes e o jornal The New York Times terem concluído que se deveu a mísseis Tomahawk disparados pelas forças dos EUA. Qual é sua opinião sobre essa declaração?

Eles atacaram aquela escola intencionalmente. Em grandes operações militares, no primeiro dia, os alvos são sempre muito bem selecionados. Nas semanas seguintes, talvez não seja o caso, porque há muitas coisas acontecendo. Mas todos os alvos do primeiro dia foram cuidadosamente escolhidos.

Eles sabiam que aquilo era uma escola. Aquela escola estava lá há anos. Eles queriam atingir aquelas crianças porque talvez fossem filhos de oficiais militares e queriam dar uma lição. É com isso que estamos lidando. Estamos lidando com bárbaros.

O Irã estaria disposto a transferir seu urânio enriquecido para um terceiro país, que é uma demanda dos americanos para um acordo de paz?

Não acho que o Irã esteja disposto a transferir urânio. O Irã não vai abrir mão de seu urânio enriquecido para nenhum terceiro país.

Quais são as outras linhas vermelhas para o Irã?

O cessar-fogo é uma linha vermelha. O direito do Irã de enriquecer urânio é uma linha vermelha. Isso foi deixado claro aos americanos em múltiplas ocasiões e não vai mudar. E estamos preparados para voltar à guerra por isso.

Números oficiais indicam que a inflação de alimentos está acima de 100%. Por quanto tempo o Irã pode sobreviver a essa pressão econômica?

Vamos sobreviver indefinidamente. Esta é uma luta pela nossa sobrevivência. Não há espaço para complacência, não há espaço para recuar. Sabemos que os EUA são um regime implacável, e Israel é um regime brutal. Não começamos esta guerra, não começamos a guerra anterior. Temos que resistir.

E a população pobre que está sofrendo aqui no Irã?

O governo está fazendo o que precisa fazer para ajudar as pessoas. Se os EUA conseguirem o que querem, o sofrimento será infinito. Eles tentarão destruir este país. Não temos outra opção senão resistir. Não estamos conversando com pessoas racionais. Estamos falando de pessoas que travaram duas guerras contra nós em menos de um ano, guerras não provocadas, enquanto estávamos negociando.

O senhor foi voluntário na guerra Irã-Iraque. Vê semelhanças entre os dois conflitos?

Aquela também foi uma guerra existencial. Esta é a terceira guerra que os EUA impõem ao Irã. A primeira foi por meio de seu proxy Saddam Hussein, a quem foram dadas armas químicas. A segunda guerra foi no ano passado, e a terceira é a atual.

Eu era da Basij, força de voluntários da Guarda Revolucionária. Sobrevivi a dois ataques químicos, com gás neurotóxico e gás mostarda. Armas químicas fornecidas pelo Ocidente. Saddam Hussein usou essas armas contra iranianos e depois contra iraquianos. Fui a Halabja [onde ocorreu ataque com armas químicas no Iraque] logo depois, e jornalistas ocidentais foram levados até lá. Eles não noticiaram nada. Liberdade de imprensa é uma piada.

Mas aqui no Irã não há liberdade de imprensa.

Há muito mais liberdade de imprensa do que no Ocidente. Agora, jornais e sites, por causa da guerra, estão mais unidos. Mas no Irã, há críticas ao presidente, aos líderes. Há muito mais liberdade de imprensa no Irã do que em outros lugares.

Este é um país que está sob cerco. Não é o Brasil. É um país atacado, com guerras travadas contra ele. Eles tentam nos fazer passar fome, usam dinheiro para minar. Se o Brasil estivesse onde estamos, em nossa vizinhança, vocês teriam muito menos liberdade.

Qual é a condição de saúde do aiatolá Mojtaba Khamenei?

É boa. Se não fosse boa, por que o escolheriam como líder?

Não seria melhor para a população se ele fizesse discursos, falasse em público ou fizesse vídeos?

Essa seria uma boa maneira de ajudar os americanos a matá-lo.

Vídeos?

Com a tecnologia que eles têm hoje, é muito perigoso. [Mohammad Bagher] Ghalibaf, chefe das negociações [e presidente do Congresso], você o vê fazendo discursos?

Não, mas ele dá entrevistas.

Muito raramente. Você vê os comandantes militares? Estamos em guerra com uma superpotência que vai exterminar nossas crianças. Não podemos arriscar.

Que tipo de papel um país como o Brasil poderia desempenhar para tentar ajudar a resolver o conflito?

Não acho que o Brasil possa fazer muito. Não conseguiu impedir os EUA de ocuparem a Venezuela. O Brasil é um país fraco, não é como o Irã. Eu esperaria que o Brasil fosse diferente. Mas os EUA podem invadir Cuba e o Brasil não fará nada. Não temos expectativas do Brasil.

Pessoas legais, mas… é fácil para vocês de longe falarem sobre liberdade, custo de vida e tudo isso. Eles não estão matando vocês. Seu presidente é uma boa pessoa, ele critica [os EUA], mas não vai fazer nada.

O presidente Lula foi um dos primeiros líderes mundiais a condenar as mortes em Gaza e dizer que achava se tratar de genocídio.

Eu disse que ele é uma pessoa legal. Mas criticar é uma coisa, fazer algo é diferente. Quando eles massacram pessoas em barcos no Caribe e nenhum país tem uma resposta real, quando sequestram um presidente, independentemente do que você pense dele, quando fazem outra nação passar fome no seu continente e ninguém faz nada a respeito, então…não tenho nenhuma expectativa.

E a China?

A China é diferente. A China tem sido cada vez mais assertiva e é uma parceira confiável do Irã. Assim como a Rússia. Não estou dizendo isso como crítica ao povo do Brasil. Mas não temos expectativas do governo do Brasil. Ele não fez nada pelos venezuelanos, pelos cubanos, então como podemos esperar que façam algo pela nossa região?


Raio-x | Mohammad Marandi, 60

É analista político e professor de literatura inglesa e orientalismo na Universidade de Teerã, onde fez graduação e mestrado, e doutor pela Universidade de Birmingham (Reino Unido).

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