Brasil é dos brasileiros, diz senador democrata dos EUA que critica tarifas e falas de Trump sobre eleições

O senador democrata Tim Kaine, 68, afirma que o Brasil tem uma “razão legítima” para desconfiar que os Estados Unidos podem tentar influenciar as eleições presidenciais de 2026, diante da postura adotada pelo presidente Donald Trump em relação ao país.

Para o parlamentar, porém, dizer que o governo americano já está interferindo no processo eleitoral seria uma expressão “forte demais”.

Em entrevista à Folha em seu gabinete, Kaine afirma que Trump tem um “favorito muito claro” na disputa brasileira e faz “tudo o que pode” para deixar essa preferência evidente. O senador pelo estado da Virgínia condena essa postura e diz que “o Brasil é dos brasileiros”. “Devemos deixar que o Brasil faça suas próprias escolhas nas eleições”, resume.

Vice-presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental do Comitê de Relações Exteriores do Senado, Kaine é uma das principais vozes democratas sobre a política dos Estados Unidos para a América Latina.

Ele também critica as tarifas impostas por Trump ao Brasil. Kaine as classifica como “completamente ilógicas” e sugere que possam ter sido motivadas “até por razões potencialmente até corruptas”. Para ele, a taxação prejudica consumidores e empresas americanas e acaba empurrando parceiros comerciais dos EUA para mais perto da China.

Autor de uma de iniciativas no Senado para tentar barrar as tarifas impostas ao Brasil sob a IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional) —usada para sobretaxar o Brasil em 40% no ano passado—, Kaine lamenta que Trump tenha recorrido a outro instrumento legal para restabelecer as sobretaxas sob a seção 301. A nova base jurídica reduz significativamente a capacidade do Congresso de contestar as medidas, ele avalia.

O senador comenta ainda a indicação do político republicano Daniel Perez para novo embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Embora tenha votado a favor da nomeação na Comissão de Relações Exteriores, Kaine diz que sua posição não representa apoio à política externa do governo Trump. Para o democrata, porém, é melhor que haja um embaixador em Brasília do que o posto continue vago, como está desde janeiro de 2025.

No fim do ano passado, tivemos a sensação de que a relação entre EUA e Brasil estava melhor, mas, com os últimos acontecimentos, a sensação é de retorno à instabilidade.

E por razões realmente lamentáveis. Donald Trump tem uma obsessão por tarifas que é muito imprudente em relação aos efeitos sobre os consumidores americanos e as empresas americanas. E ele tem uma obsessão adicional específica com o Brasil porque é próximo de Bolsonaro e não gosta que o Brasil exerça seu próprio sistema jurídico para responsabilizar pessoas por seus atos.

Então temos o Brasil, um país com o qual temos superávit comercial. A maior parte dos argumentos do presidente Trump sobre tarifas é de que os Estados Unidos estão sendo explorados por países com os quais temos déficit comercial.

Mas aqui temos um parceiro comercial, e o presidente Trump está usando tarifas não apenas por razões completamente ilógicas, mas talvez até por razões corruptas. Essas tarifas basicamente prejudicam as famílias e as empresas americanas.

O senhor teme que as novas tarifas prejudiquem mais essas famílias e empresas, além do que houve no ano passado?

Mesmo que as tarifas tenham algumas exceções, tarifas são impostos. Elas fazem com que as famílias e empresas americanas paguem mais pelos produtos.

Nunca existiu uma guerra comercial unilateral. Se você impõe tarifas, o outro país sempre responde com tarifas recíprocas. Isso gera um peso adicional e, normalmente, prejudica as companhias americanas que exportam para o Brasil.

Li uma reportagem dizendo que o Brasil está buscando, junto ao Mercosul, um aumento significativo das negociações comerciais com a China.

Então, por que exatamente o presidente Trump está fazendo isso? Está prejudicando consumidores, prejudicando empresas e empurrando países que deveriam ser nossos aliados para os braços da China no comércio. Como isso ajuda qualquer pessoa nos Estados Unidos?

O senhor liderou um esforço para brecar o uso da IEEPA no Brasil. Como foi?

Conseguimos que cinco republicanos se juntassem aos democratas para repreender o presidente pelas tarifas. Depois, a Suprema Corte derrubou as tarifas baseadas na IEEPA, e o presidente está reimpondo tarifas com base em outro dispositivo legal, em relação ao qual eu não tenho a mesma possibilidade de contestá-las imediatamente.

Com as tarifas da IEEPA, eu podia apresentar uma contestação e forçar uma votação. Com as tarifas baseadas na outra seção da lei [a seção 301], isso não é possível imediatamente.

Não existe um mecanismo garantido para que eu possa contestá-las. Eu posso tentar mudar a legislação para criar um mecanismo ou alterar a lei para limitar o uso dessas tarifas. Mas isso exige um projeto de lei que vai para uma comissão e, pela minha experiência, o presidente republicano dessa comissão não vai colocá-lo em votação.

Ainda sobre as tarifas, durante a sabatina de Daniel Perez, indicado pelo governo Trump para ser o novo embaixador do Brasil, o senhor levantou preocupações…

Ele reconheceu que temos um superávit comercial. Mas, como alguém que não fazia parte do Departamento de Estado e também não participou da decisão de impor tarifas —afinal, ele era um legislador estadual [na Flórida]—, ele realmente não estava em posição de explicar a política do governo.

O senhor votou a favor da indicação dele no comitê de Relações Exteriores. Por quê?

Eu conheço várias pessoas na Flórida, dos dois partidos, que me disseram acreditar que ele será um bom embaixador no Brasil. Liguei para alguns líderes legislativos democratas que conheço e perguntei: “Ele é equilibrado? Razoável?”.

Minha visão geral é a seguinte: quando um presidente é eleito, ele precisa ser capaz de montar sua equipe. E, desde que eu considere que alguém seja uma pessoa responsável, mesmo que tenha uma orientação política diferente da minha, isso pesa a favor. Além disso, considero muito melhor que o Brasil tenha um embaixador confirmado do que não tenha nenhum. Veja onde estamos 18 meses após o início da administração.

Enviar um embaixador confirmado é um sinal de respeito. Não ter um embaixador confirmado pode levar um país a pensar: “Será que não somos importantes o suficiente para merecer um embaixador?”.

Votei a favor dele na comissão e, se fosse uma votação apenas sobre ele no plenário, eu votaria novamente a favor. Mas acredito que ele será incluído em um grande pacote de nomeações que também contém pessoas nas quais eu realmente não quero votar. Talvez você me veja votando “não” no plenário. Não seria um voto contra ele, mas porque ele faz parte de um pacote único que inclui outras pessoas.

O Brasil negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que deveriam viajar ao país. O governo brasileiro afirmou que havia risco dr a viagem fomentar uma tentativa de intervenção no processo eleitoral. Como o senhor analisa o ocorrido?

O Brasil tem uma razão legítima para acreditar que os Estados Unidos poderiam tentar interferir em suas eleições? Sim.

Quero dizer, o presidente Trump, ao impor as tarifas ao Brasil com base na IEEPA, fundamentou especificamente essas tarifas —que, em tese, deveriam ser justificadas por uma emergência nacional que afete os Estados Unidos— no fato de que o Brasil estava processando o ex-presidente Bolsonaro.

Como isso representa uma emergência para os Estados Unidos que justificaria impor tarifas e aumentar os custos para consumidores americanos? Então, quando se olha isso, eu consigo entender por que o Brasil ficou preocupado que pessoas enviadas ao país pudessem ter alguma intenção inadequada.

Isso não significa que isso realmente fosse acontecer ou que aqueles funcionários do Departamento de Estado que tiveram os vistos negados fossem fazer isso.

O presidente Trump é muito próximo do presidente da Argentina, Javier Milei, que recentemente tomou uma medida altamente incomum, sem precedentes, na minha opinião [a participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, quando Milei atacou o presidente Lula, o ministro Alexandre de Moraes e abriu uma crise diplomática entre Brasil e Argentina].

Nós não deveríamos estar expressando preferência sobre quem outros países escolhem como seus líderes. Devemos deixar que cada país escolha sua liderança e, depois que essa escolha for feita, trabalhar com o governo eleito.

O senhor sente que esse episódio, somado às tarifas, mostra que o governo Trump está tentando interferir nas eleições brasileiras? Ou é cedo para dizer isso?

Dizer que está “tentando interferir” talvez seja uma expressão forte demais. Eles têm um favorito muito claro, e o presidente está fazendo tudo o que pode para deixar isso muito evidente. Eu considero isso inadequado. O Brasil é dos brasileiros. Devemos deixar que o Brasil faça suas próprias escolhas nas eleições.

Se nós não queremos que ninguém tente influenciar as nossas eleições, por que deveríamos influenciar as eleições dos outros? O presidente apareceu na televisão há duas semanas reclamando de pessoas que tentaram interferir nas eleições americanas de 2020.

Eu não sei se os Estados Unidos estão prestes a tomar alguma medida que seria, de fato, inadequada, mas até mesmo expressar preferência da forma como o presidente Trump fez, adotando medidas oficiais e mencionando o presidente Bolsonaro, criticando o sistema de Justiça brasileiro e aquele processo específico… Na minha opinião, isso ultrapassa a linha do aceitável.

Existe alguma ação que a comissão de Relações Exteriores possa fazer em casos como o dos funcionários que tentaram ir ao Brasil?

Nós não temos autoridade de supervisão sobre quem o Poder Executivo decide enviar para outro país, a menos que seja um embaixador cuja nomeação precise da confirmação do Senado. Nós podemos fazer questionamentos.

Tivemos uma audiência sobre as Américas pouco antes desse episódio acontecer. Na próxima vez em que tivermos uma audiência relacionada às Américas, essa pergunta será feita: “Expliquem essa situação. O que estamos fazendo para eliminar qualquer mal-entendido?”.

O senhor apresentou uma legislação relacionada à amazônia, tentando torná-la mais segura e dando aos Estados Unidos mais instrumentos para ajudar o Brasil. Por quê?

Na verdade, a única vez em que estive no Brasil foi há alguns anos, e fui a Manaus. Acredito que o mundo inteiro tem muito em jogo quando se trata de preservar a amazônia. E os Estados Unidos também.

Se pudermos ser úteis nesse esforço, isso seria excelente. Há muito tempo penso que a proteção da amazônia poderia, inclusive, servir como um terreno fértil para uma cooperação internacional mais ampla.

A China pode ter algumas ferramentas que ajudem nisso, nós podemos ter outras. Acho que o presidente Lula poderia exercer um papel de articulador internacional, reunindo especialistas do mundo inteiro em torno da amazônia.

Sempre esperei que algo assim pudesse acontecer. Mas a amazônia também é uma região onde existe muita ausência do Estado e muita ilegalidade. Então, se houver coisas que possamos fazer em conjunto com o governo brasileiro —não contra ele ou sem o seu apoio.

Mas, se pudermos fazer coisas que protejam a amazônia tanto do ponto de vista da segurança quanto do ponto de vista ambiental, sempre respeitando a soberania dos países onde ela está localizada, acho que isso seria positivo.


Raio-X | Tim Kaine, 68

1958, St. Paul (Minnesota). Senador pela Virgínia, foi vice na chapa com Hillary Clinton em 2016. É vice-presidente da subcomissão que inclui o chamado Hemisfério Ocidental (Américas). No ano passado, liderou um movimento contra as tarifas aplicadas ao Brasil com um projeto de lei e também propôs texto sobre a segurança na amazônia.

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