A Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) informou aos países-membros que já não consegue determinar com precisão o tamanho, a composição nem a localização do estoque de urânio enriquecido do Irã. A avaliação consta de um relatório confidencial obtido pela Associated Press e divulgado nesta quinta-feira, 4.
O documento representa um dos alertas mais graves emitidos pela agência desde o início da escalada militar que envolve Irã, Israel e Estados Unidos. Segundo a Aiea, as restrições de acesso impostas depois dos ataques às instalações nucleares iranianas impediram a retomada das inspeções regulares e comprometeram a capacidade de fiscalização prevista pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear.
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O órgão classificou a situação como incompatível com suas responsabilidades de salvaguarda e afirmou ser “indispensável e urgente” que o governo iraniano volte a cumprir plenamente suas obrigações internacionais.
Irã ainda é motivo de preocupação
A principal preocupação da comunidade internacional continua sendo o volume de urânio altamente enriquecido acumulado pelo Irã. Segundo os últimos dados disponíveis da própria Aiea, o país mantém um estoque superior a 440 quilos de urânio enriquecido a até 60% de pureza.
Embora o porcentual ainda esteja abaixo do nível normalmente associado à fabricação de armas nucleares, estimado em cerca de 90%, o salto técnico necessário para alcançar esse patamar é relativamente pequeno.
O diretor-geral da Aiea, Rafael Grossi, afirmou recentemente à Associated Press que a quantidade de material disponível poderia permitir a produção de até dez bombas nucleares caso o Irã decidisse militarizar o programa. Grossi ressaltou, contudo, que isso não significa que o país possua armas nucleares ou tenha tomado a decisão política de produzi-las.
O programa nuclear iraniano
A preocupação internacional já não está concentrada apenas na capacidade iraniana de enriquecer urânio. O principal desafio passou a ser a perda da chamada “continuidade do conhecimento”, expressão utilizada pela Aiea para descrever situações em que os inspetores deixam de acompanhar a movimentação do material nuclear.
Em linhas gerais, a agência admite que não consegue verificar com segurança onde está o estoque atualmente, se houve transferência entre instalações ou se parte do material foi deslocada durante ou depois dos ataques militares registrados nos últimos meses.
Essa situação reduz a capacidade de monitoramento internacional em um momento de elevada instabilidade regional.
A única instalação inspecionada
Desde fevereiro, a única instalação nuclear visitada por inspetores da Aiea foi a Usina de Bushehr, no sul do Irã. A inspeção ocorreu entre os dias 1º e 3 de junho. O complexo utiliza urânio enriquecido fornecido pela Rússia a 4,5% de pureza, nível adequado para geração de energia elétrica e muito inferior ao empregado em armamentos nucleares.
As demais instalações ligadas ao programa iraniano continuam sem fiscalização regular. Complexos como Natanz, Fordow e Isfahan permanecem no centro das preocupações internacionais.
Relatórios anteriores da Aiea mostravam que parte relevante do estoque de urânio enriquecido estava armazenada em Isfahan. A agência, entretanto, admite que não pode confirmar a situação atual do material.
Negociações enfrentam novo obstáculo
A divulgação do relatório ocorre enquanto Estados Unidos, Irã e mediadores internacionais tentam consolidar uma solução diplomática para a crise. Um dos temas mais sensíveis das negociações envolve o destino do estoque de urânio enriquecido.
Washington quer que o material seja retirado do território iraniano e colocado sob supervisão internacional. Teerã rejeita a proposta e insiste em manter o controle do estoque dentro do país.
A divergência tornou-se um dos principais obstáculos para um acordo mais amplo sobre o programa nuclear iraniano. Ao mesmo tempo, a guerra continua produzindo efeitos econômicos e estratégicos em toda a região. O Irã mantém influência sobre o Estreito de Ormuz, rota fundamental para o transporte global de petróleo, gás natural e fertilizantes. A continuidade das tensões contribui para manter pressão sobre os preços internacionais de energia.
No relatório distribuído aos governos, Grossi reafirma apoio às negociações em andamento e manifesta disposição da Aiea para participar de uma solução diplomática.
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