A PF (Polícia Federal) identificou uma transferência de R$ 14,2 milhões de um fundo ligado ao grupo Refit para uma empresa da família do senador Ciro Nogueira. A movimentação apareceu na investigação sobre um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação envolvendo o conglomerado do setor de combustíveis comandado pelo empresário Ricardo Magro, que tem mandato de prisão decretado e é considerado foragido.
A informação foi divulgada primeiramente pelo Estadão e confirmada pela CNN Brasil.
O STF (Supremo Tribunal Federal) foi informado sobre as movimentações no âmbito da Operação Sem Refino, autorizada na última semana. A ofensiva da PF teve como um dos alvos o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL-RJ).
Na ocasião, a Justiça também determinou a prisão do empresário Ricardo Magro, mas ele está fora do país. O empresário é considerado foragido e teve o nome incluído na lista da Interpol.
Magro é apontado pela Receita Federal como líder do grupo empresarial considerado o maior devedor contumaz de tributos do país, acumulando débitos superiores a R$ 26 bilhões. As investigações apuram suspeitas de fraude, lavagem de dinheiro e sonegação de ICMS no setor de combustíveis.
Apesar de um ex-assessor de Ciro Nogueira ter sido alvo de mandado de busca e apreensão, o parlamentar não entrou na lista de investigados da Sem Refino. O repasse para a empresa ligada à família do senador ainda será analisado com mais profundidade pelos investigadores.
No início de maio, o político foi alvo operação, a Compliance Zero, que investiga supostas fraudes relacionadas ao Banco Master. De acordo com a PF, o Ciro Nogueira teria recebido “vantagens indevidas” em troca de apoio ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro em projetos no Congresso
A PF aponta pagamentos mensais que variariam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil ao senador.
Refit
No caso envolvendo a Refit, a PF analisou registros contábeis de fundos e empresas vinculadas ao grupo de Ricardo Magro. Entre elas está a Athena, proprietária de imóveis que, segundo a investigação, seriam utilizados pelo conglomerado.
A empresa recebia recursos de fundos ligados ao grupo, como o EUV Gladiator, cuja estrutura financeira se conecta a uma holding no exterior também associada à Refit, segundo os investigadores.
Foi nesse rastreamento que a PF identificou a transferência de R$ 14,2 milhões da Athena — apontada como a principal beneficiária do fundo — para a empresa Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis.
Em relatório enviado ao STF – ao qual a CNN teve acesso – a PF descreve a ligação da Athena com estruturas do grupo Refit e detalha a movimentação financeira identificada pelos investigadores.
“Acrescenta-se que tal conta se dirige à Athena Real Estate LTDA, a qual está vinculada ao fundo EUV Gladiator, cujo cotista é a Eurovest S.A., e adquiriu vários imóveis ligados ao Grupo Refit”, diz a PF.
Em outro trecho, os investigadores afirmam que “na contabilidade da Athena viu-se que em 2024 o capital social foi integralizado no valor total de R$ 22 milhões”, além de registrar movimentação de R$ 14,2 milhões envolvendo a empresa Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis. Segundo a PF, o valor teria sido posteriormente transferido para uma conta identificada como “imóves”.
Os documentos analisados até agora não detalham a finalidade da operação nem trazem informações adicionais sobre o negócio, o que deverá ser aprofundado em etapas seguintes da investigação.
A PF também localizou repasses de R$ 1,3 milhão feitos por uma empresa ligada à Refit para Jonathas Assunção Salvador Nery de Castro, ex-secretário-executivo da Casa Civil durante a gestão de Ciro Nogueira no governo Jair Bolsonaro (PL). Ele foi alvo de busca e apreensão na operação. A defesa não foi localizada pela reportagem.
Por meio de nota, o senador Ciro Nogueira disse lamentar “as recorrentes tentativas de associá-lo a escândalos”. Afirmou ainda que “a empresa que adquiriu o terreno buscava uma área superior a 40 hectares com o propósito de construir uma distribuidora de combustíveis” e o valor mencionado “se refere à venda dessa área, situada em local altamente valorizado em Teresina [PI]”.
Veja a nota do senador Ciro Nogueira na integra:
O senador Ciro Nogueira lamenta as recorrentes tentativas de associá-lo a escândalos, as quais serão inevitavelmente frustradas, uma vez que não praticou nenhum ato irregular ou ilegal.
Em relação ao caso em questão, esclarecemos que empresa que adquiriu o terreno buscava uma área superior a 40 hectares com o propósito de construir uma distribuidora de combustíveis. O valor mencionado pelo repórter se refere à venda dessa área, situada em local altamente valorizado em Teresina, cuja venda foi regular e totalmente declarada junto aos órgãos competentes em valores condizentes com o mercado.
Ressalte-se que a empresa da família do senador atua justamente no segmento imobiliário, na compra, venda e aluguel de imóveis. Informamos, ainda, que o senador atualmente sequer detém participação na empresa e que, na época do negócio, sua participação era inferior a 1%.
O senador Ciro Nogueira manifesta sua total tranquilidade no que se refere a essas e outras insinuações. Ele destaca ser o principal interessado no esclarecimento dos fatos mencionados, acusações que surgem, estranhamente, em ano eleitoral com a clara intenção de desgastar sua imagem junto ao povo do Piauí.

