O governador Cid Gomes (PSB) promoveu ontem a mais radical mudança administrativa em quase sete anos de mandato. Via Facebook, anunciou mudanças em oito secretarias, que mexem com todos os principais partidos aliados do governo. As alterações atingem setores estratégicos, como Fazenda, Saúde, além da Segurança Pública – área mais crítica de seu mandato, há dois anos e oito meses sob comando do coronel Francisco Bezerra.
Os outros secretários substituídos foram os detentores de mandato parlamentar que estavam licenciados: Mauro Filho (Fazenda/PSB), Camilo Santana (Cidades/PT), Francisco Pinheiro (Cultura/PT), Gony Arruda (Esporte/PSD) e Paulo Henrique Lustosa (Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente/PMDB). O único secretário que é deputado e permanece no governo é Nelson Martins (Desenvolvimento Agrário/PT), que, conforme O POVO informou ontem, não pretende concorrer a novo mandato.
Além deles, também foram anunciadas as exonerações de Arruda Bastos (Saúde/PCdoB) e Evandro Leitão (Trabalho e Desenvolvimento Social/PDT).
Todas as mudanças foram justificadas por pretensões eleitorais em 2014. Mesmo no caso de Bezerra, que nem filiação partidária tem. No entanto, ele é cotado para ingressar no PSD, no PSB ou no novo Solidariedade até o mês que vem. Independentemente de pretensões eleitorais, havia pressões pela demissão do secretário devido à crise instaurada na segurança.
O prazo para quem vai concorrer deixar o cargo é abril do ano que vem, mas o governador decidiu antecipar as substituições.
Volta ao Parlamento
Com as voltas de Mauro, Camilo, Pinheiro e Gony à Assembleia, deixarão a Casa os suplentes Ana Paula Cruz (PRB), Doutora Silvana (PMDB), Maílson Cruz (PRB) e Neném Coelho (PSD), de acordo com o departamento legislativo da Casa.
Já Paulo Henrique Lustosa (PMDB) assume como deputado federal na vaga atualmente ocupada por Gera Arruda (PMDB). Tanto Lustosa como Arruda são suplentes na vaga de Domingos Neto (PMDB), que hoje comanda a Secretaria Extraordinária da Copa na Prefeitura de Fortaleza.
O anúncio de que haveria mudanças no secretariado foi feito por Cid na noite de quinta em sua página na Facebook.
Sesporte investigada
A saída de Gony Arruda da Secretaria do Esporte ocorre no momento em que convênios firmados pela pasta com a Organização Não Governamental (ONG) Ciranda da Vida estão sendo investigados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Como O POVO divulgou em 28 de agosto, de 2011, quando Gony assumiu, até hoje a secretaria registra inadimplência de R$ 4,9 milhões, que foram distribuídos em 48 convênios.
Secretaria mais critica
Justificada por pretensões eleitorais insuspeitas para quem nunca pertenceu a partido político, a saída do coronel Francisco Bezerra do comando da Segurança Pública representa mudança de rumo na secretaria que mais desgasta o governo Cid Gomes (PSB) desde o ano passado.
Até aliados pressionavam pela substituição e, em entrevista veiculada ontem pelo programa HoraK, na TVC, o próprio irmão do governador, Ciro Gomes (PSB), defendeu a necessidade de alterações. A troca de secretário dentro do pacote da reforma administrativa e a justificativa eleitoral não disfarçam a enorme pressão que havia por mudanças no setor mais crítico da administração estadual, em cenário de violência crescente.
Por causa dos números da violência, a substituição do coronel da SSPDS é aprovada por entidades representativas de policiais civis e militares, Ministério Público, sociedade civil e por pesquisadora dos direitos humanos ouvidos pelo O POVO. Todos reclamam da falta de diálogo.
“Os números demonstram que esta gestão é uma tragédia, um genocídio. Espero que o próximo secretário seja uma pessoa que possa dialogar”, diz Pedro Queiroz, presidente da Associação de Praças da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (Aspramece). O presidente da Associação dos Cabos e Soldados, Flávio Sabino, cita que o coronel Bezerra nunca recebeu representantes da categoria para dialogar. “Em quase três anos de gestão, o secretário não conseguiu colocar nem um projeto novo de segurança pública. Apenas deu continuidade a um sistema que já vinha sendo falho”,
A nova gestão da SSPDS “não vai ter uma missão fácil”, avalia o vereador Capitão Wagner (PR), presidente da Associação dos Profissionais de Segurança Pública do Ceará. “O secretário (Bezerra) deixou situação caótica”, diz. Por isso, indica o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará (Sinpoci), Gustavo Simplício, seria melhor assumir a pasta um civil.
Na avaliação da professora Glaucíria Mota Brasil, coordenadora do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética (Labvida), da Universidade Estadual do Ceará (Uece), os dirigentes da SSPDS “não são admirados pela tropa”. “Eles não têm legitimidade”, opina. Ela salienta a necessidade da criação de um plano de segurança que seja transparente. “Não sabemos qual o plano de segurança pública. Se existe, não foi divulgado”, diz a professora.
Para a criadora do grupo Fortaleza Apavorada, Eliana Braga, o futuro gestor precisará “conversar com os dois lados (policiais e sociedade civil), saber onde está a falha e procurar corrigir o que nunca foi corrigido”.
O promotor Iran Sírio, coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias Criminais, Júri e Controle Externo da Atividade Policial, do Ministério Público, considera que a segurança necessita de plano e resultado concretos. “Vejo que o governador talvez queira mudar para a construção de política de segurança que atenda aos anseios do Ceará de um estado mais seguro”.
Via Facebook, o governador informou que se reúne segunda-feira com os novos secretários para definir as diretrizes de cada pasta.
Deputados surpresos
A sessão de ontem da Assembleia Legislativa ocorreu sob atmosfera de falta de informação e indefinição de quais deputados suplentes seriam atingidos pela exoneração de secretários com mandato de deputado estadual.
Antes de Cid Gomes anunciar os primeiros nomes a deixarem as secretarias, o deputado Antônio Carlos (PT) fez discurso de despedida. O petista afirmou que soube das mudanças anunciadas por Cid por comentários no Twitter.
Com o anúncio oficial, foi confirmada a saída dos deputados Neném Coelho (PSD), Ana Paula Cruz (PRB), Mailson Cruz (PRB) e Doutora Silvana (PMDB). Antônio Carlos acabou não sendo atingido, pois isso só ocorreria com a exoneração de Nelson Martins – o que não houve. As informações chegavam aos deputados via assessores que monitoravam as atualizações de Cid no Facebook.
Ao se pronunciar, a deputada Dra. Silvana se disse “triste” pela forma como soube da informação. “Fui pega de surpresa, soube pelos jornais. Eu já era suplente, e você sabe que, a qualquer hora, pode não estar no mandato, mas eu gostaria de ter sido psicologicamente preparada”, afirmou a médica.
Até o deputado Augustinho Moreira (PV), vice-líder do Governo, mostrou-se com poucas orientações sobre a mudança. O vice-presidente da AL e primo de Cid Gomes, Tin Gomes (PHS), teve conversa com Silvana após o anúncio da saída, segundo ele, para explicar “a necessidade da mudança administrativa”.
A sessão acabou ainda sob expectativa de mudanças. Aliviado por não ter perdido o cargo, Antônio Carlos disse: “Por enquanto, ainda estou aqui”.
O Povo

