
Virou caso de investigação policial a avalanche de postagens em redes sociais dando conta da realização de arrastões em Fortaleza nas últimas duas semanas. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que “acompanha e investiga os fatos relatados”. “Contudo, não é possível detalhar os passos das apurações para não atrapalhar os trabalhos”, diz a nota, enviada pela assessoria de imprensa da pasta.
No microblog Twitter, no site de relacionamentos Facebook, no bate-papo Whatsapp e até por mensagem de texto no celular, essas narrativas de violência alastram-se rapidamente desde o começo de outubro. Dão conta de ataques em série a veículos, que teriam ocorrido, principalmente em áreas nobres da cidade, como as avenidas Santos Dumont, Dom Luís e Barão de Studart, a Via Expressa e as ruas Beni de Carvalho, Manuel Jesuíno e João Carvalho.
Usuários do Facebook chegaram a postar foto que classificaram como flagrante de arrastão em Fortaleza. Investigação da SSPDS, entretanto, apontou como algo passado em São Paulo, meses atrás. Também houve páginas e perfis pessoais que publicaram vídeo sobre a apreensão de 50 adolescentes autores de arrastões na orla da capital cearense como sendo algo atual – quando, na verdade, a gravação datava de 2010.
Boatos
A situação é considerada grave, já que a instantaneidade das redes sociais pode gerar um sentimento de pânico coletivo em Fortaleza e as postagens nem sempre são reais. O POVO constatou não passarem de boatos pelo menos cinco de 15 ocorrências encontradas na Internet. A reportagem foi aos locais e conversou com moradores e comerciantes. O discurso era similar ao do motoboy Josué de Morais, 28: “aqui e acolá, os caras roubam no sinal (da Engenheiro Santana Júnior com Dom Luís). Mas arrastão mesmo eu nunca vi. Só ouvi falar que teve.”
Nas três delegacias responsáveis por investigar casos de violência nos bairros mais citados pelos internautas (Aldeota, Meireles, Papicu, Edson Queiroz), nenhum Boletim de Ocorrência foi registrado nos últimos dias denunciando a prática de arrastões. Acionada pelo O POVO para informar quantos arrastões foram registrados nos últimos dias em Fortaleza, a SSPDS informou, em nota, que os dados não constam na base de dados.
Delegada titular do 2º Distrito Policial, Socorro Portela afirma que os boatos atrapalham o trabalho da Polícia. “Desloquei dois policiais pra Beni de Carvalho quando vi comentários nas redes sociais, mas os comerciantes não relataram nada. Não faz parte da nossa realidade atender a esse tipo de ocorrência. Mas não significa dizer que ela não exista. Porque a pessoa pode não querer registrar. Nós precisamos contar com a ajuda da população. A gente fica triste com esses boatos, porque é como se quisessem desmoralizar o trabalho da Polícia.”
Para o pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), Marcos Silva, a recorrência de relatos sobre arrastões em redes sociais é o reflexo do que os fortalezenses têm vivido nos últimos anos. Contudo, pode haver exageros. “E de uma maneira despreocupada com o real, onde o indivíduo reproduz (a postagem) sem refletir sobre essa violência e pode dar voz a uma fofoca como elemento de verdade. É preciso cuidado com boatos”.
O Povo

