A POVOAÇÃO DE NOSSA SENHORA DOS MILAGRES

Por Carlos César Pereira de Sousa, professor da EEMTI Dona Antônia Lindalva de Morais e mestre em história pela Universidade Regional do Cariri.

Em 1703, Bento Correia Lima já um importante senhor de engenho e criador de gado na Capitania de Pernambuco quando pediu e obteve do capitão-mor do Ceará, Jorge de Barros Leite a posse de uma área extensa de terras nas margens do Riacho dos Porcos. Bento Correia Lima era filho de um português que na segunda metade do século XVII havia combatido os holandeses nas guerras brasílicas de 1645 a 1654 e que depois também participara das campanhas contra os indígenas sublevados do sertão de Pernambuco e contra os quilombos da Serra Barriga em Alagoas.

Capitão Bento Correia Lima, fazendeiro e senhor de engenho de Pernambuco que recebeu a sesmaria do Riacho dos Porcos em 1723 para povoar e criar gado, em 1740 Bento Correia Lima mandou construir a capela de Nossa Senhora dos Milagres que daria origem a Povoação de Milagres. (Desenho de Ana Ivyna Leite Lima).

Nas primeiras décadas do século XVIII, os indígenas Kariri enfrentavam os colonizadores na chamada Guerra dos Bárbaros, essa guerra que se iniciara nas últimas décadas do século anterior perduraria até por volta de 1750, quando aos poucos os Kariri foram sendo vencidos e em seguida aldeados pelos frades capuchinhos ou escravizados pelos novos donos das terras dos sertões, os colonizadores a serviço da Coroa Portuguesa. Assim, alegando serem as terras roubadas aos indígenas, terras devolutas, muitos fazendeiros baianos, pernambucanos e sergipanos passaram a ocupar os vales e recantos dos sertões do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

O capitão Bento Correia Lima foi um desses fazendeiros e pediu vários títulos de posse de terras nos sertões dos Cariris, principalmente nos Cariris Velho (Paraíba) e Cariris Novos (Ceará). Ao longo do período de 1703 a 1723 foram inúmeros os pedidos de sesmarias que este fazendeiro dirigiu às autoridades coloniais do Ceará. Em todos estes pedidos de terras alegava que eram terras sem dono e que as povoaria com gente e criações de gado.

Em 1723, Bento Correia Lima reitera seu pedido de sesmaria no Riacho dos Porcos, dessa vez faz o pedido dirigindo-se ao capitão-mor do Ceará, Manoel Francês, nesse novo pedido de posse das terras do Riacho dos Porcos informa ao governante que povoaria a região com gado vacum, gado cavalar e traria também trabalhadores negros escravizados e trabalhadores brancos para ajudá-lo na ocupação e povoamento da Sesmaria do Riacho dos Porcos.

Esse novo pedido de posse de terras na região do Riacho dos Porcos foi decisivo para a ocupação da área onde se havia desenrolado episódios sangrentos da Guerra dos Bárbaros. Ao longo de três décadas, desde 1690, os indígenas Kariri que viviam as margens do rio Podimirim enfrentaram os invasores, mas foram aos poucos sendo derrotados, exterminados, escravizados ou obrigados a fugir para outros pontos dos sertões. Bento Correia Lima garantiu para si a posse das terras e passou então a colonizá-las apoiando-se nos trabalhadores escravizados ou livres que serviam nas suas fazendas de criar gado.

Na década de 1730, Bento Correia Lima intensificou o trabalho de colonização de suas terras obtidas nos sertões da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Para efetivar essa ocupação o capitão passou a ordenar a construção de engenhos, sedes de fazendas de gado, currais e capelas em homenagem aos santos da devoção da família Correia Lima.

O capitão Bento Correia Lima era proveniente da Vila Real de Goiana na Capitania de Pernambuco, Goiana era um dos principais centros produtores de açúcar do Nordeste e fora palco de uma das principais batalhas das Guerras Brasílicas, a Batalha de Tejucopapo (1646). Fazendeiro abastado e pertencente a baixa nobreza portuguesa, Bento Correia Lima possuía terras em várias capitanias do Nordeste, nas fazendas próximas ao litoral cultivava cana-de-açúcar, mas com a crise do açúcar no final do século XVII, passou a investir capitais na criação de gado, pois a expansão colonizadora e a exploração de ouro nos sertões de Minas Gerais aumentaram a demanda         por carne e couro fazendo crescer a pecuária no Nordeste.

O capitão Bento Correia Lima solicitou as terras do Riacho dos Porcos para criar gado, principalmente bois e cavalos, mas em 1735 concluiu que as terras da região também eram boas para o cultivo da cana-de-açúcar e em 1738 mandou instalar o primeiro engenho de cana do Cariri. Este engenho foi instalado no Sítio de Nossa Senhora do Pilar, localidade as margens do Riacho dos Porcos onde ele instalara a sede da fazenda de criar gado da família Correia Lima ainda na década de 1720.

Em 1740 o capitão Bento Correia Lima doou um pedaço de terra nas proximidades do Sítio Pilar para a construção de uma capela agora em homenagem a Nossa Senhora dos Milagres, santa da devoção sua e de sua esposa dona Cosma Correia Lima. Descendentes de açorianos a família Correia Lima trouxera desse arquipélago português a devoção a esta representação de Maria, pois fora exatamente na Ilha de Açores que se erguera no século XVI um santuário em homenagem a Nossa Senhora dos Milagres. A mesma família Correia Lima ajudara a construir a igreja de Nossa Senhora dos Milagres na Vila Real de Goiana em 1725 e construiria outras igrejas em honra a esta         manifestação da mãe de Jesus pois possuíam fazendas em Goiana, Olinda e Sergipe.

Assim foi o capitão Bento Correia Lima o fundador da Povoação de Milagres, povoação esta que seria o primeiro núcleo originário da futura Vila de Nossa Senhora dos Milagres, que se emanciparia do Crato em 17 de agosto de 1846. Evidentemente que não o fez sozinho, além do capitão Bento Correia Lima centenas de trabalhadores negros livres ou escravizados, trabalhadores indígenas e trabalhadores brancos também participaram do trabalho de fundação da Povoação de Milagres.

A capela de Nossa Senhora dos Milagres que emprestaria seu nome a povoação, a vila e depois ao município foi construída a mando do mesmo sesmeiro devoto dessa santa pelos trabalhadores negros livres ou escravizados.  Foi assim que o capitão Bento Correia Lima fundou a Povoação de Nossa Senhora dos Milagres, isto é, a partir do derramamento do sangue dos indígenas Kariri, do trabalho dos escravizados e dos trabalhadores livres que vieram colonizar o Vale do Riacho dos Porcos. A lavoura de cana-de-açúcar e a criação de gado logo prosperaram no Riacho dos Porcos, desenvolveram a Povoação de Milagres e enriqueceram esses primeiros sesmeiros e colonizadores do vale, mas em 1745 uma seca devastou tudo, matou as plantações e o gado. Bento Correia Lima dirigiu ao rei de Portugal, Dom Pedro II, um ofício datado de julho de 1745 pedindo indenização por suas perdas ocorridas devido à seca que se abateu terrivelmente sobre a Povoação de Milagres.

A seca de 1745 provocou a ruína das fazendas de gado e engenho do Vale do Riacho dos Porcos, expulsou colonos e levou ao quase total abandono da Povoação de Milagres. A capela de Nossa Senhora dos Milagres foi abandonada e uma parte dela desmoronou, mas em 1749 ela seria reconstruída, agora não mais de barro, mas de pedra. Foi o reinício da colonização da região do Riacho dos Porcos com a chegada de novos sesmeiros e as notícias da existência de lavras de ouro no leito do Rio Salgado.

Assim uma importante mudança nas atenções da Coroa Portuguesa para com o Cariri Oriental ocorreria na década de 1750, um viajante a procura de riquezas pelos sertões encontrou uma pepita de ouro no leito do Riacho dos Porcos. Em 1755, as autoridades coloniais foram convencidas de que havia ouro suficiente no leito do Rio Salgado do qual o Riacho dos Porcos era afluente e este fato justificava a instalação de uma companhia mineradora no Cariri.

Entre 1755 e 1756, máquinas, trabalhadores escravizados e trabalhadores livres foram trazidos para trabalhar como mineradores na Companhia Mineradora de São José dos Cariris Novos, mas passados dois anos o ouro que se tinha achado era insuficiente para pagar até mesmo os gastos da mineração. A companhia foi desmontada e os trabalhadores escravizados foram vendidos para fazendas locais ou então fugiram e se instalaram pela área da Povoação de Milagres e encostas da parte leste da Chapada do Araripe.

A partir da década de 1760 com o aldeamento sob o governo dos frades capuchinhos dos indígenas Kariri sobreviventes dos massacres ocorridos durante a Guerra dos Bárbaros, muitos outros fazendeiros foram se instalado nas terras do Riacho dos Porcos e a Povoação de Milagres se consolidou como um importante centro produtor de gado e cana-de-açúcar nos sertões dos Cariris Novos. A principal base da economia da Povoação de Milagres eram as fazendas de gado que produziam carne e couro, além disso, muitos fazendeiros vendiam suas criações nas feiras de gado de Icó, Jaguaribe e Crato, podiam também levar o gado para vender em Cajazeiras e Sousa. Milagres era o local onde se cruzavam duas importantes estradas boiadeiras e o comércio no povoado logo se tornou intenso. Os outros importantes produtos da economia de Milagres no século XVIII eram os derivados da cana-de-açúcar: rapadura, açúcar e aguardente.

A mão-de-obra empregada no trabalho era principalmente a escravizada formada por pessoas negras e pessoas indígenas, mas havia também trabalhadores livres, esses braços livres, no entanto eram minoria, pois a maior parte da população de Milagres neste período era formada por negros e indígenas. Fora essa população negra que construíra a capela de Nossa Senhora dos Milagres em 1740 e a reconstruíra em 1749, mas esses mesmos trabalhadores que haviam erguido o templo em homenagem à padroeira da Povoação de Milagres não puderam participar das missas e fazer suas devoções neste local, assim em 1770 obtiveram a autorização para construir uma igreja em homenagem a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos na localidade denominada Podimirim nas proximidades da Povoação de Milagres.

A capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi concluída em 1785 e a partir desse momento os pretos e pretas livres e escravizados de Milagres passaram a realizar suas devoções nessa igreja, foi aí que nasceram os Pretinhos de Congos, grupo de resistência negra contra a escravidão que une cantos, danças e devoção religiosa.

Portanto, foi o projeto colonizador do capitão Bento Correia Lima que investiu capitais para financiar o extermínio dos indígenas Kariri no sertões do Ceará e Paraíba, e depois requereu o pagamento desses gastos com a Guerra dos Bárbaros através da doação pelas autoridades coloniais dessas terras tomadas aos índios, e foi ainda o mesmo capitão Bento Correia Lima que utilizando seus capitais mandou instalar fazendas de criar gado e engenhos no Vale do Riacho dos Porcos, e com o trabalho de homens e mulheres negros escravizados, trabalhadores brancos e indígenas fundou a Povoação de Milagres ainda na primeira metade do século XVIII.

No detalhe deste mapa das capitanias do Ceará, Pernambuco e Bahia de 1785 podemos observar a representação da Povoação de Milagres as margens do Riacho dos Porcos.

REFERÊNCIAS

BEZERRA, Antônio. Algumas Origens do Ceará, Tipografia Minerva, Fortaleza, 1918.

FILHO, J. de Figueiredo. Engenhos de rapadura do Cariri, Edições UFC, 2010.

MORAIS, Flávio. Milagres do Cariri, Gráfica Universitária, Crato, 1989.

SOUZA, Carlos. Milagres, Nossa Terra Cariri, Artes Gráficas, Fortaleza, 2021.

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