ITAPIPOCA: Após morte de recém-nascida, mãe acusa hospital de negligência; direção nega

Com mais de 2.300 compartilhamentos no Facebook, o caso da morte da recém-nascida provocou manifestação nesta manhã em frente ao hospital (Foto: Site da Noticia)

A professora Kelly Anne da Silva Alves, 22 anos, acusa o Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo, em Itapipoca, município a 147,3 quilômetros de Fortaleza, de negligência pela morte de sua filha recém-nascida em atendimento de cirurgia de parto no último dia 8. A direção do hospital nega negligência, mas admite falta de médicos.

Segundo Kelly Anne, a cirurgia de parto estava marcada para o dia 1º de agosto, no entanto, o hospital não dispunha de anestesista para auxiliar na cirurgia.

“Estava marcada há mais de um mês, mas no dia não tinha anestesista e mandaram eu voltar no dia 8. Mas no dia 7 comecei a entrar em trabalho de parto, liberei um líquido verde e fui para o hospital. Lá, o médico confirmou que eu estava em trabalho de parto, mas disse que o bebê não estava encaixado para nascer de parto normal e me mandou ir para casa para voltar no dia seguinte”, relatou a professora.

Kelly Anne disse que chegou ao hospital às 7 horas e foi atendida por volta de 10h30min, quando sua filha nasceu. No entanto, a professora foi avisada pelo médico que a recém-nascida havia defecado no interior da barriga e aspirou as fezes.

“Ela nasceu roxa, nem chorou. Me disseram que 90% dos seu pulmão estava com fezes. Ela precisava de uma UTI, mas lá não tem. Tentaram levar para Fortaleza, mas ela precisava ser drenada e não poderia se deslocar. Infelizmente, ela faleceu à tarde, pro volta de 16h. Nesse hospital não há recursos para salvar uma vida”, desabafou.

De acordo com Kelly, outras mortes de recém-nascidos já ocorreram no hospital. “Ontem mesmo outro bebê morreu por falta de atendimento. Quando foram fazer a cirurgia de parto, a criança já estava morta”, denunciou Kelly, que informou que a família registrou um Boletim de Ocorrência (B.O.) na delegacia da cidade e oficializou reclamação na ouvidoria Regional de saúde de Itapipoca.

Ainda segundo a professora, esse não foi o primeiro problema que passou no hospital de Itapipoca. De acordo com ela, sua segunda filha nasceu sozinha, sem acompanhamento de médicos. “Tive ela sozinha dentro de um quarto. Fiz o parto da minha própria filha. A enfermaria até falou: “Ô parideira boa”. Eles só fizeram cortar o cordão e levar a menina. Até a placenta quem tirou fui eu”, contou.

Hospital nega

O diretor administrativo do Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo, Juliano Ragnini, 30, negou que o hospital tenha sido negligente no caso da professora, mas admitiu a falta de um anestesista no dia da cirurgia de parto, dia 1º.

“Não foi isso de fato que aconteceu. Ontem estive com o médico que atendeu a paciente. Fui informado que no dia 1º de agosto foi realizado um procedimento seletivo. Realmente, não tínhamos anestesista pela manhã. É que dois deixaram o hospital para ir ao Hospital Regional de Sobral (HRN) e outros estavam doentes, um deles, inclusive, teve um infarto. Mas outros chegariam à tarde. Se fosse algo urgente teríamos transferido a paciente para Fortaleza, mas como era seletivo, o obstetra atendeu e pediu para retornar na semana seguinte para fazer a cesariana”, disse o diretor administrativo.

Segundo Ragnini, a professora exigiu uma consulta com um médico que não estava mais empregado no hospital. “O médico falou que se ela sentisse alguma coisa poderia procurar outro colega do hospital. Temos obstetra 24 horas por dia. Mas ela disse que não voltaria porque queria ser consultado com outros dois que não estavam mais com a gente. Ela também queria fazer laqueadura, mas o próprio Ministério da Saúde não aconselha em pacientes menores que 26 anos”, contou.

O diretor disse que um procedimento de cesariana seletiva foi realizado no dia 7, mas que em nenhum “momento foi detectado líquido verde saindo da paciente”. “O médico mesmo me disse que se ele tivesse conseguido detectar o líquido e não tivesse feito nada seria uma conduta errada. Ele é um médico experiente e não cometeria um erro simples desses”.

Ainda segundo a versão dada pelo diretor, no dia 8, o hospital recebeu a paciente com todo o aparato de obstetrícia e pediatria, no entanto, ” a criança acabou aspirando fezes e seis horas depois veio a falecer.” “Não houve em nenhum momento negligência médica”, reiterou. Entretanto, o diretor afirmou que o caso está sendo investigado e que o médico responsável irá lhe entregar um relatório do caso ainda nesta semana.

Falta de médicos

Sobre a falta do anestesista no dia marcado para a cirurgia da professora, o diretor afirmou que o hospital está passando por uma carência de médicos por conta da abertura do HRN, em Sobral. “Vários médicos estão saindo para trabalhar lá. A remuneração é muito superior ao que praticamos aqui no hospital. Não temos condições de cobrir. São valores acima de nossas condições. Perdemos quatro médicos em 30 dias e não conseguimos substituí-los.”

O diretor explica que este problema não se restringe apenas ao Hospital e Maternidade São Vicente de Paulo de Itapipoca. “Tivemos reunião semana passada e falamos das nossas dificuldades. O problema ocorre também em vários outros hospitais do Ceará, como em Tianguá e Crateús. Cerca de 15 profissionais já saíram desses hospitais para o HRN em cerca de 90 dias. Eu entendo o lado deles, mas o Estado tem que dar suporte.”

Manifestação

Com mais de 2.300 compartilhamentos no Facebook, o caso da morte da recém-nascida provocou uma manifestação nesta manhã em frente ao hospital. Sobre a acusação das mortes de outros recém-nascidos, o diretor do hospital afirmou que “não é verdade”.

“Fizemos em média de 320 a 380 partos no mês. Dá uma média de dez partos diários. Só em julho fizemos 318 partos e o índice de mortalidade foi de 0,31%. O próprio Ministério da Saúde diz que o índice tolerante é de até 1,8%”, explicou.

O Povo Online

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