
Foi com um litro d’água, três punhados de açúcar e três pitadas de sal que dona Elza Vieira da Silva, 75, livrou a família do mal-estar no início do ano. Os Vieira tiveram dor de barriga, diarreia, febre. Não teve filho, neto ou sobrinho livre do problema. O soro caseiro e os chás preparados com esmero pela antiga agente de saúde da comunidade de São Gonçalo, em Choró (Sertão Central), foram a salvação.
No fim do ano passado, uma criança menor de um ano morreu por causa da diarreia em São Gonçalo. A família deixou a região. A causa dos problemas de saúde, defende a matriarca, é a quentura destes tempos sem chuva. “É esta seca verde”. Como seca não vê limites e já deixou 178 dos 184 municípios cearenses em situação de emergência, doenças relacionadas à estiagem são comuns.
Segundo nota da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), a estiagem é “relevante” na ocorrência de doenças diarreicas agudas (DDAs). No Ceará, até junho, foram confirmados 168.299 casos. Não há informação de óbitos, mas 14 municípios somaram 77 surtos. Ressalva-se que esses são os casos que chegaram à rede de assistência e foram oficialmente notificados. Porque muitos (como os Vieira) tratam a diarreia com medidas caseiras. Em todo 2012, tinham sido 115.014 confirmações de DDA no Ceará.
O documento da Sesa indica ainda que o quadro atual “contraria” a situação dos últimos 13 anos, quando o problema aparecia no período de chuva. Choró, na Região dos Inhamuns, teve surtos porque muitas famílias consumiram água sem qualquer tratamento, indica a coordenadora de vigilância epidemiológica da cidade, Juliana Nunes. Quando choveu, muitos consumiram a primeira água a entrar na cisterna – o que não é indicado, já que, com ela, vem a sujeira acumulada no telhado da casa. A situação repercutiu no hospital da cidade. Em uma semana, chegaram a ser registrados 75 casos de DDA. Foram 11 surtos no município.
Alguns cacimbões da comunidade de São Gonçalo ainda têm água, mas o nível baixo preocupa o filho de dona Elza, o agricultor Mauro Vieira, 54. “A água ta fazendo medo a gente. Se secar, da onde vai tirar?”. Apesar de escura e habitada por sapos, é do cacimbão que muitos moradores tiram a água de beber. “Tira e só faz coar”.
Coar também é o único cuidado que a agricultora Maria Isabel Moreira, 41, tem com a água que ela e os 12 filhos bebem. É tirar a água do rio Curu, que passa bem perto da comunidade Pantanal, em São Luís do Curu (Litoral Oeste), colocar um pano cobrindo a boca do pote e despejar a água. Com o pano, crê Maria Isabel, filtram-se “os micróbios” e pode-se beber. O pano, para ela, “tira” o que é deixado no rio pelas lavagens (de roupa a bicho).
“Minha filha de 6 anos é doente do rio, por causa dessa água”, reconhece Maria Isabel. Genice, ela comenta, tem 6 anos e 15 quilos – peso de crianças de cerca de dois anos. Mas destinar R$ 3,50 para comprar água mineral, como fazem alguns vizinhos, é impensável para a agricultora. E botar cloro na água do pote não é hábito por ali. “O gosto fica ruim”, cita a mãe.
A água que seria ideal para a artesã Francisca Pereira da Silva, 53, é a da chuva. Mas neste ano ela foi escassa no distrito de Holanda, em Tamboril. Com a “quentura” e a “trocação de água” (“bebe água da chuva num dia e em seguida outra água”, explica dona Francisca), deu dor de barriga em todos os moradores. “Foi uma epidemia”, define a agricultora Francisca Azevedo, 25. O sonho da Francisca artesã é, um dia, não depender mais de cacimbão ou pipa e garantir água boa. Seria o fim de micoses, dores de barriga, doenças. “Se tivesse… Como a gente queria!”, sorri.
Dengue e doenças respiratórias
Bianca Pereira está que não consegue sorrir nem esconder o desânimo. Deitada em um dos leitos da pediatria do Hospital São Lucas, em Crateús, a mão parada enquanto recebe o soro, a menina espera ficar boa e poder voltar logo à escola. Aos 8 anos, Bianca é mais uma das vítimas do mosquito Aedes aegypti na cidade do Sertão dos Inhamuns. Como ali a água só chega às torneiras dia sim, dia não, o armazenamento tem sido medida necessária. Aí haja balde, vasilha, tudo pra garantir água em casa. E nem sempre isso é feito por todos com cuidado.
Segundo o coordenador da vigilância à saúde do município, Juracir Bezerra, as últimas semanas registram crescimento dos casos de dengue na cidade. Levantamento feito pela Prefeitura indicou que 82,5% dos focos do mosquito na cidade estão nos depósitos de água das casas. “Com a descontinuidade do abastecimento, as pessoas estão acumulando água de forma indevida, sem proteção. Isso potencializa os criadouros, principalmente na zona urbana”, diz.
Bairros como Cidade Nova, Cidade 2.000 e Maratoan – onde moram Bianca e a família – registram muitos casos. O problema é mais frequente na zona urbana porque a população estava acostumada a receber água normalmente. “Na zona rural, não ter água é menos incomum”, pondera.
Juracir diz que desde março Crateús tem problemas de abastecimento e não há previsão de normalização. A cidade está sendo abastecida pelo açude Flor do Campo, o maior da região, que fica em Novo Oriente.
Na unidade hospitalar da cidade, onde Bianca estava internada na semana passada, em uma manhã, chegaram seis casos suspeitos de dengue. O principal grupo com a doença na cidade tem entre 20 e 49 anos. No ano, até a última semana, a cidade notificou 824 casos da doença – 246 foram confirmados.
Para tentar contornar o quadro, a prefeitura investe em ações educativas e de limpeza urbana. Porém, a mãe de Bianca, a auxiliar de serviços gerais Lourdirene Pereira da Silva, 34, diz que faltam mais visitas dos agentes de endemias às casas. “Eles só vão uma vez a cada dois meses”. Além do problema do racionamento, Loudirene diz que a água que chega não é boa para beber. “Estou tendo que comprar água mineral. Não confio na água que tá vindo. Tem cor diferente e é mais salgada”.
Foi a tosse persistente que levou o aposentado Tito Rodrigues de Oliveira, 73, à unidade de saúde do distrito de Sucesso, em Tamboril, na última semana. “Estou há três dias que só tusso”, conta. Culpa o calor pelo problema. No posto, o que mais chega nas últimas semanas é paciente reclamando de problemas respiratórios. “É tosse, garganta inflamada. As pessoas alérgicas são mais afetadas pela seca”, afirma a enfermeira Polyanna Torres.
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