
Em plena comemoração do Dia do Índio, celebrado ontem em todo o Brasil, uma boa notícia chega ao povo cearense. O levantamento “Brasil Indígena”, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tendo por base o Censo de 2010, revelou que, no Estado, a quantidade de pessoas indígenas com mais de 10 anos de idade que foram alfabetizadas supera o de não alfabetizadas. De um total de 2.433 entrevistados na pesquisa, aproximadamente 80% deles (1.942), sabem, no mínimo, ler e escrever.
Para o representante da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME), Dourado Tapeba, o índice positivo é resultado do grande desenvolvimento da educação voltada para os índios no Ceará nos últimos anos. Segundo ele, atualmente, a rede de ensino estadual conta com 42 escolas indígenas e está em processo de ampliação com a construção de outras 11.
“Há alguns anos, nossos alunos eram bastante discriminados, mas isso tem mudado. Na Comunidade Tapeba, temos escolas até de ensino médio e alguns índios já possuem ensino superior. É uma prova de que a educação indígena está avançando no Estado”, destaca Dourado.
Desafios
No entanto, embora o número de índios alfabetizados impressione, ainda é preciso melhorar. De acordo com o representante da APOINME, as escolas indígenas ainda sofrem com a falta de investimento na formação de professores. Ele afirma que, dentro dos povos, existem muitos instrutores qualificados e dispostos a lecionar, mas por questões burocráticas, não podem assumir o cargo.
“O Estado exige que eles façam curso de magistério, mas, ao mesmo tempo, não facilita para que isso aconteça. Por conta desse problema, temos que recorrer a professores não indígenas”, diz Dourado Tapeba.
Oportunidades
Natália Martins, coordenadora do Projeto Juventude Indígena Realizando Sonhos, realizado na Comunidade Pitaguary, também lembra da estrutura defasada das escolas. “Não existe simulados, aulões, laboratórios de redação, nem uma equipe de professores que acompanhe os alunos com mais atenção. Ainda existem muitas deficiências, principalmente em relação ao ensino médio”, pontua Natália.
Para tentar reverter essa situação e dar maiores oportunidades aos jovens Pitaguary que desejam ingressar na faculdade, foi criado o Projeto Juventude, com apoio do Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim. A iniciativa faz parcerias com colégios particulares de Fortaleza e da região metropolitana, que se propõem a receber alunos de escolas indígenas e oferecer mais instrumentos de aprendizado.
A coordenadora destaca que, apesar de levar o índio para um ambiente à parte de seu povo, a proposta não desvaloriza a cultura das etnias nem afasta-o de seus iguais. “Eles não vão perder sua identidade nem seu vínculo com o povo. Esses jovens irão se formar e se apresentar para todo o Brasil como alunos indígenas, voltando para a comunidade e servindo a ela como profissional”, ressalta Natália Martins.
Diário do Nordeste

