Quem é Ricardo Magro, da Refit, o maior devedor fiscal do Brasil

O dono do Grupo Refit, Ricardo Andrade Magro, 51 anos, não estava no Brasil para acompanhar as notícias sobre a operação Sem Refino, que bloqueou R$ 52 bilhões em ativos e suspendeu as atividades do conglomerado de combustíveis, no mês passado.

Ele não retorna oficialmente ao Brasil desde 2018 e é considerado foragido internacional com Difusão Vermelha da Interpol, alerta global para localizar e prender fugitivos provisoriamente. Para alcançá-lo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a pedir ajuda a Donald Trump. Magro reside nos Estados Unidos.

A operação Sem Refino expôs o tamanho do problema: o maior devedor de impostos do Brasil construiu, ao longo de décadas, uma suposta rede de proteção política que atravessa o Congresso Nacional e governos estaduais.

Além disso, Magro também é suspeito de ter ligações com o crime organizado, hipósete investigação pela Polícia Federal na operação Carbono Oculto, que investiga o avanço do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e no mercado financeiro para lavagem de dinheiro.

Refit acumula dívida bilionária com atuação em SP e RJ

Paulistano, formado em Direito pela Universidade Paulista (Unip) com especialização em direito tributário, Magro começou a carreira como advogado de postos de bandeira branca — aqueles sem exclusividade de marca.

A família controlava uma rede de postos da bandeira Esso, os postos Tigrão, que enfrentaram dificuldades nos anos 1990 com a reestruturação do mercado de combustíveis.

Em 2008, Magro assumiu o controle da refinaria de Manguinhos, na zona norte do Rio de Janeiro. À época, um dos centros de processamento mais antigos do país já estava mergulhado em dívidas de tributos e salários. O investimento para retomar as atividades foi de cerca de R$ 100 milhões, aplicados na modernização do parque de refino e estocagem.

Segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), as dívidas do conglomerado Refit — somando empresa, distribuidoras vinculadas e pessoas físicas — totalizam R$ 52 bilhões, sendo 94% desse passivo, ou R$ 48,8 bilhões, concentrado na própria refinaria.

Segundo as Procuradorias-Gerais de São Paulo e Rio de Janeiro, a sonegação de ICMS soma R$ 24,4 bilhões nos dois estados, os mais afetados pelas operações do grupo. A estrutura do grupo envolve offshores em jurisdições de sigilo societário, trusts, fundos de investimento e empresas de fomento mercantil, segundo a decisão do STF.

De acordo com a PF, os fundos operavam para absorver créditos das distribuidoras e devolver recursos ao próprio grupo sob aparência lícita — mecanismo clássico de lavagem de capitais.

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Cláudio Castro concedeu benefício fiscal à refinaria já investigada

No último dia 15, agentes da Polícia Federal bateram à porta da residência do ex-governador fluminense Cláudio Castro (PL) num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, para cumprir um mandado de busca e apreensão durante a operação Sem Refino.

Em outubro de 2025, Castro sancionou a lei complementar 225, apelidada pela própria Polícia Federal de “Lei Ricardo Magro”, pois as condições se amoldavam aos interesses do conglomerado Refit.

A legislação foi publicada um mês após a interdição do parque industrial da refinaria pela ANP e pela Receita Federal, e previa condições de parcelamento que podiam reduzir em até 95% a dívida da empresa com o estado. À época, a Refit já era investigada por suspeitas de fraude fiscal e lavagem de dinheiro.

Em nota à imprensa, a defesa de Castro afirmou que todos os procedimentos da gestão “obedeceram aos critérios técnicos e legais previstos na legislação vigente” e destacou que o governo conseguiu que a refinaria pagasse parcelas de dívidas num montante próximo a R$ 1 bilhão.

O ex-governador deixou o cargo em março de 2026, na véspera da condenação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre abuso de poder nas eleições de 2022. Em vídeo publicado nas redes sociais, Castro anunciou a desistência da candidatura ao Senado.

“Resolvi retirar a minha candidatura ao Senado Federal para que eu possa focar completamente em minha defesa”, afirmou. “Não tenho dúvida que a verdade será esclarecida”, complementou.

Na operação Carbono Oculto, empresas do grupo Refit foram citadas em investigação sobre infiltração do PCC no setor de combustíveis — acusação que Magro nega. “Eu sou a pessoa que mais combateu o PCC”, disse em entrevista à Folha de S.Paulo em setembro de 2025.

Procurados pela Gazeta do Povo, a Polícia Federal informou não se manifestar sobre investigações em andamento e o Ministério Público Federal afirmou não comentar processos em sigilo. A defesa de Ricardo Magro e o advogado Carlo Luchione, que representa o ex-governador Cláudio Castro (PL), não responderam até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

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Senador apresentou emendas que beneficiariam grupo investigado

Em maio de 2025, a Refit patrocinou uma conferência no hotel St. Regis, em Nova York, com diárias acima de R$ 11 mil. O evento reuniu governadores cotados para a disputa presidencial de 2026 e autoridades dos três poderes — entre eles o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional dos Progressistas.

Meses antes, o senador havia apresentado emendas ao projeto de lei sobre o devedor contumaz que, de acordo com investigadores, dificultariam o enquadramento de empresas do setor de combustíveis na categoria. Nos bastidores do Legislativo, as propostas ficaram conhecidas como “emendas Refit”. Nenhuma foi aprovada.

A investigação foi além do episódio em Nova York. A Polícia Federal identificou um pagamento de R$ 14,2 milhões de uma empresa ligada ao Grupo Refit para a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis — empresa da família do senador.

Em nota divulgada à imprensa, Nogueira afirmou que o valor corresponde à venda regular de um terreno de mais de 40 hectares em Teresina, destinado à construção de uma distribuidora de combustíveis, declarada às autoridades, e que a participação na empresa era inferior a 1% à época. A PF analisa se a operação foi regular ou se serviu para ocultar eventual vantagem indevida.

A decisão do STF aponta ainda um segundo vínculo: Jonathas Assunção Salvador Nery de Castro, ex-secretário executivo da Casa Civil quando Nogueira era ministro e diretamente subordinado ao senador, recebeu cerca de R$ 1,3 milhão de empresas do Grupo Refit em poucas semanas — padrão que a decisão classifica como típico de empresa de passagem, sem despesas operacionais compatíveis com a atividade declarada.

Procurada pela Gazeta do Povo, a assessoria de imprensa do senador Ciro Nogueira não retornou até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.

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