Privatização na Atenção Primária à Saúde, deputados e ex-ministros criticam decreto

Deputados e ex-ministros da Saúde criticaram Decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro que permite parcerias com iniciativa privada na Atenção Primária à Saúde no Brasil. Decisão foi instaurada por meio do Decreto nº 10.530 publicado na edição desta terça-feira, 27, do Diário Oficial da União (DOU). A medida, ainda que não deixe claro, abre precedente para eventuais iniciativas de privatização no ramo até então gerido exclusivamente por entidades públicas atendendo diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Unidade Básica de Saúde de Fortaleza (Foto: Divulgação/SMS)

A publicação do Decreto também levanta discussão pela ausência da assinatura do ministro Eduardo Pazuello, responsável pela pasta que administra o SUS.

Deputados do PCdoB e do PT protocolaram Projeto de Decreto Legislativo (PDL), instrumento que tem o poder de suspender imediatamente os efeitos de um decreto presidencial. Parlamentares do PSOL farão o mesmo hoje. As informações são do colunista Chico Alves, do portal UOL, com quem alguns dos políticos conversaram.

PcdoB, PT, PSL

“Esse é um decreto absurdo”, diz a deputada Jandira Feghali (PcdoB-RJ). “O Sistema Único de Saúde deve garantir o acesso irrestrito, a Constituição define que esse atendimento é um direito de todos e dever do Estado. O texto que delega a gestão das unidades básicas de saúde na verdade aponta para a privatização”, disse. A atenção primária é a porta de entrada do SUS e conta com cerca de 39 mil unidades que são fundamentais em ações como o primeiro atendimento em casos de coronavírus, por exemplo, e em programas de vacinação.

Jandira é uma das signatárias do PDL com que o PCdoB tenta sustar os efeitos do texto presidencial. Outro PDL foi assinado pela deputada Maria do Rosário (PT-RS) e pelo deputado e ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha (PT-SP). O petista avalia que o Decreto é mais uma demonstração da voracidade de venda de Bolsonaro e Guedes em relação ao patrimônio de políticas públicas. “Além de tudo é um desrespeito absurdo, já que estuda parcerias público-privadas nas unidades de saúde sem envolver os municípios, que são os responsáveis pelas unidades básicas e pelos profissionais que estão lá”, afirmou Padilha ao UOL. “Tem um misto de intervencionismo com ignorância em relação a como funciona o SUS”, acrescentou.

O deputado Junior Bozzella (PSL-SP) criticou fortemente também a circunstância em que o governo encaminhou a iniciativa. “Publicar na surdina, em meio à pandemia, um decreto que faça qualquer tipo de aceno à privatização do Sistema Único de Saúde é apunhalar mais de 150 milhões de brasileiros pelas costas na hora em que mais precisam”, acredita. “É atentar contra a Constituição que garante o acesso universal à saúde a toda população”, afirmou.

Ex-ministros também comentaram

Além de Alexandre Padilha, outros ex-ministros da Saúde desaprovaram a medida. Luiz Henrique Mandetta, que comandou a pasta no governo Bolsonaro até abril, reclama da falta de transparência. “Sem explicar do que se trata, é um tiro no escuro”, diz ele.

José Gomes Temporão, ministro da Saúde no governo Lula, classificou como “disparate total” o decreto. “Entregar a rede básica de saúde para a gestão privada é uma iniciativa equivocada de qualquer ponto de vista”, criticou.

O presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernando Pigatto, classificou de “arbitrariedade” o decreto presidencial. A entidade está avaliando o texto em sua Câmara Técnica da Atenção Básica (CTAB) para tomar as devidas providências legais. “Precisamos fortalecer o SUS contra qualquer tipo de privatização e retirada de direitos”, firmou Pigatto, em vídeo divulgado nas redes sociais.

com informações: O POVO Online

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