Ordem para entrar foi necessária, diz Fleury sobre massacre no Carandiru

Segundo Fleury, quando soube das mortes afastou de imediato os comandantes da ação e pediu ao Ministério Público que apurasse os fatos (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O ex-governador de São Paulo, Luiz Fleury Filho, prestou depoimento ontem e afirmou que “a ordem para a entrada (no presídio do Carandiru) foi absolutamente necessária e legítima”. A invasão do prédio ocorreu em 2 de novembro de 1992, quando ele ocupava o cargo de governador, e resultou na morte de 111 presos.

O segundo dia do julgamento do massacre do Carandiru foi suspendo por volta das 21h de ontem e será retomado hoje. No mesmo dia deve ser iniciado o interrogatório dos 26 PMs acusados pelo crime.

Fleury foi a quarta pessoa a ser ouvida no segundo dia de julgamento e falou por cerca de 40 minutos. Nesse tempo ele disse que a decisão pela invasão do presídio cabia ao secretário de segurança da época, Pedro Franco de Campos, que foi ouvido também na tarde de ontem.

“Não dei ordem de entrada na cadeia, mas se estivesse no meu gabinete, teria dado. A entrada da Polícia era extremamente necessária”, afirmou o ex-governador. “Quando soube das mortes, afastei de imediato os comandantes da ação e pedi que o Ministério Público apurasse os fatos”, completou.

Ao ser questionado sobre a relação do Massacre do Carandiru com o surgimento da facção PCC, Fleury afirmou: “Se usa essa justificativa para dar glamour à criação do PCC, que era um time de futebol. Ele se intensificou durante as rebeliões ocorridas no governo do meu sucessor”, afirmou. A Polícia não pode se omitir, disse ele, durante o depoimento.

A Polícia Militar entrou no Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Carandiru pouco depois do início de uma rebelião de presos. Segundo Fleury Filho, a informação era de que alguns presos haviam morrido, após uma briga entre os próprios detentos. Durante o depoimento, o ex-governador assumiu a responsabilidade política pelo episódio, mas negou qualquer outra. “A responsabilidade política do episódio é minha. A criminal cabe ao tribunal responder”, ressaltou.

Entrada desorganizada

A primeira testemunha de defesa ouvida ontem no julgamento do Massacre do Carandiru, o desembargador Ivo de Almeida, caracterizou como “desorganizada” a entrada da Polícia Militar no Pavilhão 9, para conter a rebelião. Juiz corregedor do presídio à época, Ivo de Almeida disse que o diretor do presídio, José Ismael Pedrosa, tentou negociar com os detentos instantes antes da invasão, mas a tentativa foi frustrada, porque policiais militares o fizeram retroceder.

“Pedrosa pediu que os policiais militares o protegessem para uma tentativa de negociação. Ele foi junto com a tropa, protegido por escudos. Queria conversar com alguém, mas foi tolhido nessa ação”, declarou.

O juiz corregedor ponderou que não viu exatamente o momento em que o diretor foi retirado pelos policiais, já que ele não ultrapassou a muralha. De acordo com o desembargador, o portão precisou ser arrombado, porque havia uma barricada.

Diário do Nordeste

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