Quem nunca ouviu a famigerada expressão “manja dos paranauê”, relacionada a alguém que entende, ou sabe muito de determinado assunto? Etimologicamente, “paranauê” vem do tupi “paraná”, que significa “semelhante ao mar/rio”, mais “auê”, uma saudação. O termo, consagrado por memes de internet, foi inicialmente conhecido pela música do grupo Abadá Capoeira e se tornou uma referência ao jogo de roda.
Capoeira, por sua vez, é aquele tipo de atividade que se tem uma ideia do que é, mas pouca gente sabe como explicar. Alguns definem como luta, outros como esporte, dança, jogo, brincadeira, música, artesanato, história. Todas essas definições estão certas, mas incompletas se solitárias, pois a capoeira é tudo isso e ainda mais: é uma forma de expressão da cultura brasileira.
O jogo é algo tão complexo que muitos capoeiristas não o consideram como uma mera atividade, mas como um estilo de vida. Assim explica Ricardo Souza de Castro, instrutor no Grupo Brasil Capoeira. “Além dos benefícios à saúde e coordenação motora, ela nos dá uma visão ampla das coisas, sem contar que, com cada história e palestra dos grandes mestres, vai se tornando um estudo muito bacana, pois você pratica”. Segundo Ricardo, foi a partir da capoeira que ele aprendeu a procurar melhoras nas ações do dia a dia. “A gente pensa, calcula e tem todo o estudo do adversário quando se está dentro de uma roda de capoeira, e eu trago esse exemplo para a minha vida”.
Esse também é um dos preceitos defendidos pelo contramestre Luciano Hebert. “A gente está com o projeto Viva Capoeira Viva, que resume bastante a forma como eu vejo a capoeira: você tem que não apenas lutar, ou dançar, ou jogar, ou brincar, ou cantar, ou tocar, mas viver, porque vivendo, você vai fazer tudo”. Para ele, a partir da capoeira também é possível ter acesso a outros tipos de manifestações culturais como o samba de roda, a puxada de rede, a dança do fogo, a dança guerreira e o maculelê. “Isso se vai aprendendo em paralelo, pois você tem o treino da parte física e, ao mesmo tempo, ouve a música que, querendo ou não, entra na cabeça de alguma forma e desperta a curiosidade”.
A musicalidade é exatamente uma das características consideradas mais importantes para o mestre do grupo Òrun Àiyé de capoeira Angola, Rafael Magnata. “Eu falo para os meninos daqui que o berimbau está para o capoeirista assim como o leite materno está para o bebê; é o primeiro alimento”. O mestre diz que é a partir da música que os capoeiristas entram em contato com o oralidade da capoeira, bem como a história e a essência. Ele tem como costume, inclusive, ensinar a confecção do instrumento, iniciado com a extração da madeira da mata, na época certa da lua. “Depois que cada um fabrica o seu, percebe que se torna um extensão do próprio corpo. Eles passam a aprender o instrumento a partir da raiz”.


