O Povo
Tabuleiro pendurado no pescoço, seu Felipe Melo de Castro, 61 anos, já viu de um tudo nas andanças da vida ambulante. De uns tempos pra cá, como diz, reparou numa constância de sumiços na Praia de Iracema. “Vagabundo, quando vem, leva o que pode. Até a vida dos outros. Mas também morre. Já mataram um no ponto onde fico”, recorda.
Não por acaso, seu Felipe notou aumento no número de homicídios dolosos (quando há a intenção de matar) em Fortaleza. A partir de informações da Secretaria Estadual da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), levantamento feito pelo O POVO aponta crescimento de mortes desta natureza em 58 bairros da cidade de 2011 para 2012.
Para fazer a comparação, foi considerado o intervalo de janeiro a outubro – já que a SSPDS disponibiliza dados apenas dos dez primeiros meses do ano corrente na Internet.
Em 33 bairros da Capital, as estatísticas recuaram. Em 16, mantiveram-se estáveis. Nos 12 demais bairros, não é possível calcular a variação porque nenhuma ocorrência foi registrada em 2011. Matematicamente, não se obtêm variações quando a base do cálculo é zero.
A Praia de Iracema do seu Felipe apresentou o pior cenário: inchaço de 1.100% nos assassinatos, enquanto a média de Fortaleza teve acréscimo de 40,16% (956 mortes em 2011 e 1.340 em 2012) e a do Ceará, de 32,85% (2.173 para 2.887). Em totais absolutos, no entanto, a situação mais grave é a da Barra do Ceará. Foram 33 ocorrências ano passado contra 63 este ano.
A evolução da violência extrema confronta o discurso da SSPDS de que os homicídios estariam em queda na Capital, conforme a pasta divulgou no último dia 4. Reforça, no entanto, declaração dada pelo governador Cid Gomes (PSB) na rede social Twitter três dias após a secretaria anunciar a redução de 13% dos casos entre setembro e novembro deste ano.
No microblog, em resposta a um usuário da rede, o governador disse que “a criminalidade se registra por vários indicadores: homicídios, roubos, agressões… Os homicídios aumentaram”. Em seguida, Cid completou: “Há um fenômeno recente nos estados do Nordeste, que é o crack e o tráfico desta droga, que tiveram grande influência nesta elevação”.
Tanto no total absoluto quanto no percentual, Fortaleza derrama mais sangue do que São Paulo no tocante a assassinatos. A variação na cidade com o maior contingente populacional do País foi de 30,45% (de 870 casos para 1.135 mortes), segundo estatísticas publicadas no site da Secretaria da Segurança Pública (SSPSP) paulista. A comparação entre Fortaleza e Rio de Janeiro (cidade marcada pelo convívio com o tráfico e milícias) fica impossibilitada pelo fato de a Secretaria de Estado de Segurança (Seseg) fluminense não informar os assassinatos registrados em agosto e setembro de 2011.
No total absoluto de 2012, porém, a capital cearense tem 308 casos a mais (de janeiro a outubro). “Aqui já foi muito bom. Hoje está pior. Já mataram um bem dizer na porta lá de casa. Mas ele era ‘drogueiro’. Eles mesmos se estragam entre eles”, pondera Vanuza de Fátima Machado, 57, moradora da Praia de Iracema. “Mas o local é a gente quem faz”, ensina.

