
Há mais de 20 anos, fiéis lutam pela beatificação de José Antônio de Maria Ibiapina, mais conhecido como Padre Ibiapina. Ele foi advogado, juiz de direito, chefe de polícia e deputado geral, o equivalente a deputado federal hoje. É reconhecido como um dos homens mais marcantes de sua geração. Nascido em 1805, foi apenas em 1853 que abraçou o sacerdócio com quase 50 anos.
De acordo com o Bispo de Sobral, Dom Odelir José Magri, foi o padre Francisco Sadoc de Araújo o primeiro a encaminhar o pedido de beatificação para o Vaticano. Dom Odelir explica que o primeiro processo está parado há dois ou três anos, primeiro porque o procurador da Diocese de Guarabira havia falecido, e depois porque haviam alguns critérios dentro do processo que não estavam de acordo com a burocracia da Santa Sé.
Falecido em 1883, ele deixou poucos escritos: somente algumas anotações e cartas segundo o Padre José Comblin. “Sabemos alguma coisa além disso graças às anotações feitas por irmãos e irmãs que o acompanhavam nas viagens missionárias e deixaram descrições de certos episódios”.
Natural de Ibiapina, Município de Sobral, Padre Ibiapina perdeu o pai e o irmão aos 19 anos de idade, na repressão que seguiu a revolução de 1824. Segundo o Padre José Comblin, Antônio se preparava para o sacerdócio no Seminário de Olinda, mas teve de assumir os seus irmãos mais jovens. Depois voltou para Recife, quando na primeira turma da faculdade de Direito fundada em 1828 em Olinda e se formou na primeira turma de bacharéis do Brasil.
Lecionou por um ano e voltou para o Ceará. Foi nomeado juiz de direito e chefe da polícia em Quixeramobim. Em 1833 foi eleito deputado geral para representar o Ceará na Assembleia Geral no Rio de Janeiro. “Não aceitou um segundo mandato”, conta Comblin. Voltou para Recife. Exerceu a advocacia de 1838 a 1850, primeiro na Paraíba e depois, durante dez anos, no Recife, onde adquiriu a fama de defensor dos pobres e abandonados. Em 1853 foi-lhe oferecido o sacerdócio e aceitou.
Depois de dois anos decidiu abandonar a cidade e ir para o interior, dedicando-se à evangelização do sertão. Entre 1855 e 1875, dedicou-se a pregar missões para o povo sertanejo. Percorreu os Estados de Pernambuco, Paraíba, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. A partir de 1875 ficou paralítico e não pôde mais deixar a Casa de Santa Fé de Arara, onde tinha estabelecido o centro de sua vida missionária. Um dos objetivos do padre era promover obras materiais que ajudassem o povo do interior. “Naquele tempo os poderes públicos inexistiam no interior. Os sertanejos estavam isolados demais para poder tomar iniciativas”.
Por ocasião das missões, conseguiu mobilizar milhares de trabalhadores para construir 22 Casas de Caridade, vários hospitais, cemitérios, várias igrejas. “As Casas de Caridade destinavam-se a recolher órfãos. Mas, ao mesmo tempo, passaram também a ser escolas, hospitais, centros de assistência para toda a redondeza. Na Casa de Caridade de Santa Fé chegaram a morar 200 pessoas”.
Para Comblin, não se entende evangelização sem essa integração do material e do espiritual. Os documentos da Igreja são muito explícitos. Não se toleraria mais uma evangelização que não fosse também uma promoção humana. ´
Diário do Nordeste

