
Um parto digno, natural e humanizado deveria ser comum entre as mulheres, mas nem sempre é assim. Para conquistar esse direito muitas futuras mães precisam mudar de obstetra mais de uma vez e, em algumas situações, são obrigadas a lutar por seus direitos na hora do parto. Nas cinco maternidades municipais de Fortaleza, por exemplo, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), somente no ano passado, 70,7% dos procedimentos realizados foram cesárias.
De um total de 36. 968 partos, 26.155 mulheres se submeteram a uma cesariana e apenas 10.813 puderam fazer o parto normal, ou seja 30,3%. O cenário vem se repetindo ao longo dos anos. Em 2011, dos 36.912 procedimentos, 25mil foram cesarianas, ou seja 67,7%, enquanto que o número de partos normais foi 11.912.
Campanha
Diante dessa realidade e em campanha à favor do parto humanizado e contra a violência obstétrica no momento do procedimento, entidades sociais, mães, gestantes, profissionais e autoridades públicas se reuniram, na tarde desta quinta-feira, 9, em audiência pública, no Auditório da Câmara Municipal de Fortaleza.
Uma das mulheres que estava na audiência em defesa de um parto melhor e mais humano era a psicóloga Cristiane Rodrigues, 34, mãe de Hiago, 9 meses. Ela conta que mesmo antes de engravidar já tinha o desejo de ter parto natural. Contudo, não foi tão fácil quanto ela imaginava encontrar um profissional que quisesse acompanha-la e realizar o parto normal.
“Tive que mudar de obstetra pelo menos três vezes para poder encontrar um que aceitasse me acompanhar e apoiar a minha decisão. Depois de tanta procura encontrei. No entanto, no dia do meu trabalho de parto a médica não estava disponível recorrer a um plantonista em um hospital público”, diz.
Foi então que Cristiane começou a vivenciar a violência psicológica. Segundo diz, quando chegou na unidade o trabalho de parto já estava bem avançado e ela exigiu um procedimento natural. Mas, foi tratada de forma grosseira pelos médicos e por enfermeiras. “Não foi permitida a entrada de acompanhante e tive que tomar as rédeas da situação para poder parir. Fui tratada de forma grosseira e por isso decidi pedir outro médico. Não foi fácil parir de forma natural”, diz.
Para ela, os médicos dificultam o procedimento normal e preferem a cesariana devido a diferença de tempo entre os procedimentos. “A violência obstetrícia não acontece só no momento do parto. Para mim, é qualquer ato físico e de forma psicológica que acontece no pré-natal, durante o parto e pós parto”, diz.
Informação
A doula(acompanhante de parto), Kelly Brasil, organizadora do Ishtar Fortaleza, grupo de apoio ao parto, ressalta que o parto é um momento de festejar e celebrar a vida. Portanto, nada mais humano do que realiza-lo de forma natural. “O parto normal é mais saudável, apresenta menos risco de hemorragias, infecções e complicações para mãe e para o bebê”, diz.
Kelly conta que decidiu ser doula e trabalhar com parto a partir do momento que precisou de informações e ajuda para se submeter ao procedimento e teve dificuldades. ” Tive meu filho há seis anos e eu não tinha informações sobre o parto natural. Precisei pesquisar muito e troquei de médico várias vezes. Portanto, senti vontade de ajudar essas mulheres a terem uma experiência igual a minha”, ressalta a doula.
Contudo, ela acredita que a luta à favor do parto humanizado está só começando, pois ainda existe muito o que fazer para que as mulheres e os tenham consciência dos benefícios do parto normal. O diretor do Hospital Municipal Nossa Senhora da Conceição, no Conjunto Ceará, Ciro Nepomuceno, reconhece que alguns médicos se recusam a realizar o parto normal diante do longo trabalho de parto.
Porém, ressalta que o que falta é uma consciência coletiva a respeito dos benefícios do procedimento. As campanhas são muito importantes. Nós vivemos em período em que há uma cultura do cesarismo, pois as mães transmitem esse desejo para as filhas que acabam acreditando que a cesariana é a melhor opção”.
Diário do Nordeste

