O representante de vendas de produtos médicos Stefan Dimter, 48, sempre ouviu do pai que seu avô nunca quis se envolver com política. Porém, após os arquivos de filiação do partido nazista terem sido divulgados pelo governo americano, essa narrativa foi posta em xeque.
Ele nunca chegou a conhecer o avô, já que o comerciante nascido na região dos Sudetos, no antigo Império Austro-Húngaro, morreu antes dele nascer. Mas o nome de seu antecessor constava em uma das fichas como um membro do NSDAP (sigla em alemão para Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, ou Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães). “Para mim, ainda não faz sentido. Mesmo agora falando isso, não entra na minha cabeça. Então, tento encontrar explicações.”
Dimter pôde pesquisar o nome do avô numa ferramenta criada pelo jornal Die Zeit. Sem alarde, o Arquivo Nacional dos Estados Unidos disponibilizou, no fim do ano passado, as reproduções em microfilme que tinha das fichas de filiação. Como a busca no site da instituição muitas vezes não funcionava, o semanário alemão decidiu criar um buscador que facilitasse o acesso.
A reação ao projeto foi estrondosa. Foram mais de 3 milhões de acessos e milhares de emails de leitores, que contavam histórias similares à de Dimter. Uma mulher de 77 anos, que sempre pensou que o pai pertencera à resistência, se perguntava por que o nome dele estava numa das fichas. Outra leitora tentava conciliar as memórias de um avô amoroso e de alguém que poderia concordar com as ideias nazistas.
De 1925 a 1945, cerca de 10,2 milhões de pessoas se filiaram ao NSDAP. O partido mantinha o registro dos novos membros em dois índices de fichas, um nacional e outro dividido pelas regiões da Alemanha nazista, chamadas de Gau. Estima-se que esses registros somavam mais de 50 toneladas de papéis.
Nenhuma dessas listas, porém, sobreviveu por inteiro. Pouco antes do fim da Segunda Guerra (1939-1945), o partido enviou as fichas a uma fábrica de papel para destruição. Mas o dono da companhia suspendeu a operação assim que percebeu o que tinha em mãos. No fim de 1945, os americanos recuperaram os documentos.
O NSDAP tinha como diretriz não coagir ninguém a ingressar no partido. O processo de admissão era altamente regulado e, fundamentalmente, ninguém podia virar membro sem a própria colaboração ou conhecimento. Fichas que chegavam à tesouraria do Terceiro Reich, na Casa Marrom, em Munique, sem assinatura do solicitante eram devolvidas.
A composição dos filiados era heterogênea, de acordo com o cientista político Jürgen Falter, que dedicou anos de pesquisa a uma parcela dessas fichas. Faziam parte da organização trabalhadores autônomos, trabalhadores qualificados e funcionários públicos, assim como trabalhadores de colarinho azul, os trabalhadores braçais. Ele estima que 60% de toda a classe de funcionários públicos se associou ao NSDAP, incluindo um número expressivo de professores.
Um típico camarada do partido era homem e jovem, nascido principalmente de 1900 a 1915. “Eram a geração da guerra. Não de soldados, mas de crianças e jovens que viveram bem a Primeira Guerra Mundial”, diz o pesquisador. Os filiados não eram necessariamente fanáticos pelas ideias de Adolf Hitler. E o ano de ingresso no NSDAP pode dar uma pequena pista da motivação dos membros.
Antes de 1933, quando o partido ainda não tinha tanta relevância, o ingresso provavelmente era fundamentado em convicção política. Depois que Hitler se tornou primeiro-ministro, em janeiro daquele ano, 1,7 milhão de pessoas se juntaram ao partido, a maioria oportunistas que buscavam se integrar ao novo regime, de acordo com Falter.
Eles eram, por exemplo, o dono de um restaurante que queria que seu estabelecimento continuasse a receber reuniões do partido. Um professor que queria ser promovido. Alguém admoestado pela organização política que, por fim, sucumbia à pressão de se juntar à legenda para proteger a família. Para evitar a entrada desses oportunistas, o NSDAP suspendeu a entrada de novos membros até 1937.
Como a população alemã da época girava em torno de 65 milhões de pessoas, dificilmente uma árvore genealógica expandida não tem algum partidário, afirma Falter.
“A Alemanha tem uma longa tradição e décadas de enfrentamento do passado. Ainda assim, no lugar mais íntimo de todos —nas famílias— esse era um assunto sobre o qual era melhor silenciar”, diz Sven Stockrahm, chefe da seção de Ciência do Die Zeit. “Mas o quanto é grande a necessidade de lidar com a verdade, isso nós subestimamos quando publicamos o projeto.”
O jornalista conta que o impacto foi, em geral, positivo, e que muitos leitores agradeceram pela iniciativa. Frequentemente assinantes diziam que a ferramenta despedaçou mitos familiares que eram mantidos havia muito tempo.
Muitos relatos destacam o choque entre as gerações da era nazista e a do pós-guerra. Uma leitora do semanário conta que gostaria de saber mais sobre o envolvimento da família no partido, mas que a única fonte possível, sua mãe de quase 90 anos, diz que o processo de desnazificação foi suficiente e que não quer mais saber do assunto.
“Tenho a impressão de que, após a era nazista, a geração dela fechou uma porta para poder voltar a olhar para o futuro. Mas, por trás dessa porta, muitas questões aguardam para ser enfrentadas. E as pessoas preferem não tocar nesse assunto, pois ele desperta muita vergonha, muita dor e culpa”, contou ela ao Die Zeit.
Enquanto algumas histórias confirmam suspeitas, outras trazem perguntas. Stefan Dimter diz que seu pai, de 90 anos, também se surpreendeu com o nome de seu próprio pai nas fichas do partido. O representante de vendas diz acreditar que pode ter havido exceções à regra de que ninguém se filiava ao partido sem ter conhecimento.
A região dos Sudetos foi anexada em 1938 à Alemanha nazista. Um conhecido contou a Dimter que os partidos que existiam ali foram fundidos ao Partido Alemão dos Sudetos, que posteriormente passou a integrar o NSDAP.
No cartão de seu avô, a data do pedido de ingresso é anterior à da suposta admissão. A mesma incongruência se repete em outras fichas da mesma região. Além disso, o avô de Dimter vivia na Eslováquia quando supostamente entrou no partido. “A gente fica cheio de interrogações e nem todas as dúvidas podem ser resolvidas. Talvez seja assim, a gente tem de simplesmente viver com o fato de que essas dúvidas existem.”

