Trump está encurralado entre escalar conflito e aceitar acordo nos termos do Irã

Donald Trump e seus assessores disseram mais de uma dúzia de vezes nos últimos cinco meses que os Estados Unidos estão perto de chegar a um acordo com Teerã. Mas, se algum pacto resultar das negociações entre Irã e Omã, ficará muito aquém dos objetivos estabelecidos pelo presidente americano quando iniciou a guerra.

Desde que atacou o Irã, em fevereiro, as exigências de Trump encolheram de uma extensa lista de concessões envolvendo as ambições nucleares de Teerã, a produção de mísseis balísticos e o apoio a milícias aliadas para apenas uma: que o Irã permita que o estreito de Hormuz volte à situação anterior ao conflito.

“A desnuclearização do Irã é o acordo definitivo”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, a jornalistas na terça-feira (4). “O acordo imediato, aquele em que se tem concentrado muita atenção, é o estreito.”

Por si só, isso representaria algo próximo de uma humilhação estratégica, segundo os críticos. O Irã só passou a explorar sua vantagem estratégica sobre o estreito depois que Trump iniciou a guerra.

Agora, qualquer entendimento poderia dar a Teerã controle sobre parte do estreito, sem lhe retirar o poder de, no futuro, cobrar taxas das embarcações que a utilizam —condições que pareceriam impensáveis aos estrategistas americanos apenas um ano atrás.

“O que antes era livre e irrestrito já não é mais”, disse Aaron David Miller, ex-negociador de paz para o Oriente Médio em governos republicanos e democratas. “E não há quase nada que Trump possa extrair de um acordo aceitável para os iranianos que mude essa realidade.”

Quanto às ambições nucleares do Irã, Washington terá de negociar a questão com um regime cada vez mais desafiador, agora convencido de que está em vantagem e de que tem capacidade para fechar o estreito quando quiser —algo muito distante da “rendição incondicional” que Trump havia exigido de Teerã.

“Não vejo, neste momento, uma forma de criar um equilíbrio de interesses no qual o governo Trump saia com algo que pessoas normais considerariam uma vitória”, disse Miller.

Mas todas as rotas para sair de uma guerra dispendiosa, que despertou temores de escassez de petróleo e aumentou ainda mais a inflação, agora parecem politicamente arriscadas para Trump, sobretudo com as eleições de meio de mandato a menos de três meses de distância.

Os preços internacionais do petróleo recuaram para menos de US$ 80 por barril na terça-feira diante da esperança de que o conflito termine. Mas os preços da gasolina nos EUA, acima de US$ 4 por galão, estão cerca de 35% acima do nível anterior à guerra, e o diesel sob Trump já superou o preço médio registrado durante os anos Biden.

Os estoques americanos de mísseis interceptadores diminuíram, e a população dos EUA e seus aliados estão exaustos, deixando o presidente com “opções limitadas”, disse Michael Ratney, ex-embaixador na Arábia Saudita durante o governo de Joe Biden.

“Uma escalada adicional traz o risco de causar graves danos aos atores regionais, aumentar os preços do petróleo e prejudicar o mercado mundial de energia”, disse Ratney.

Mas um acordo que permitisse “algum grau de controle iraniano será irritante para todos”, dos aliados do Golfo aos contribuintes americanos, afirmou.

“O desafio de Trump não é apenas como conduzir a guerra, algo que parece tê-lo deixado sem saída, mas como explicar esse acordo”, disse Ratney. Apresentar qualquer entendimento como um sucesso está se tornando “cada vez mais difícil”.

Por enquanto, as esperanças estão depositadas na abertura do estreito, por onde escoava um quinto da oferta mundial de petróleo antes da guerra e que se tornou o principal campo de batalha. Sua situação tem sido o foco das últimas semanas de negociações diretas entre Irã e Omã.

Mesmo que o Irã concorde “hoje ou amanhã em abrir o estreito”, como disse o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, à CNBC na terça-feira, isso não equivaleria ao tipo de “liberdade de navegação” anterior à guerra, disseram analistas.

Irã e Omã estavam trabalhando em “protocolos para a futura gestão” do tráfego no estreito, afirmou na terça-feira o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Teerã, Esmaeil Baghaei. Nesta quarta, o regime iraniano disse ter alcançado um acordo com Omã sobre uma proposta de rota para navegação em Hormuz.

Qualquer acordo seria provisório e abrangeria “rotas de entrada e saída de embarcações” enquanto prosseguissem as negociações sobre um entendimento definitivo, disse Baghaei.

Os EUA e mediadores regionais vinham contribuindo regularmente para as negociações por intermédio de Omã, e a Casa Branca era mantida informada sobre os avanços, segundo pessoas a par das conversas.

Mas, após meses de diplomacia para encerrar a guerra de Trump —e de reiteradas afirmações de Washington de que um avanço estava próximo—, os EUA agora dependem das negociações entre dois países do Oriente Médio para amenizar um conflito que o presidente disse, em março, que seria uma “breve incursão” e terminaria em poucas semanas.

“Na verdade, não é um acordo entre o Irã e os EUA”, disse Ali Vaez, especialista em Irã do International Crisis Group. “É um acordo entre Irã e Omã.”

O Irã estava “deixando claro que controla o estreito e que isso não está sujeito a negociação”, disse Vali Nasr, especialista em Irã e professor da Universidade Johns Hopkins. Teerã acredita que precisa mostrar aos EUA que não será derrotado por uma campanha de bombardeios e que “não abrirá mão do estreito de Hormuz”, acrescentou Nasr.

Anna Kelly, porta-voz da Casa Branca, disse que o estreito estava “completamente controlado” pela Marinha dos EUA e pelo bloqueio imposto pelos americanos aos portos iranianos.

A campanha dos EUA havia “deixado o Irã em uma situação extremamente degradada, e seria sensato que concordasse com um acordo. Caso contrário, eles sabem o que vai acontecer”, afirmou.

O entendimento entre Irã e Omã determinaria que as embarcações entrassem no estreito por águas iranianas e saíssem, em sua maior parte, por águas omanis.

Inicialmente, o Irã enviaria embarcações, incluindo petroleiros, pela hidrovia para garantir que ela estivesse livre de minas antes de o estreito ser aberto a outros navios, disse uma dessas pessoas. As embarcações não seriam submetidas à cobrança de taxas durante o acordo temporário.

Teerã insiste que, no futuro, cobrará dos navios “taxas de serviço” pela passagem, uma disposição rejeitada pelos países do Golfo. Omã propôs um acordo sem pedágios semelhante ao adotado no estreito de Malaca, no Sudeste Asiático, segundo o qual organizações sem fins lucrativos são incentivadas a fazer contribuições voluntárias para apoiar a “segurança da navegação e a proteção ambiental”.

Diplomatas esperam que o acordo reative o memorando de entendimento de curta duração assinado por EUA e Irã em 17 de junho, que deveria prorrogar um cessar-fogo de abril e reabrir gradualmente o estreito. O acordo ruiu depois que o Irã atacou navios que transitavam pela rota ao longo da costa de Omã, desencadeando uma espiral de escalada com ataques de retaliação de parte a parte.

Uma pessoa informada sobre as negociações disse que, se Teerã fechasse um acordo para abrir o estreito, os EUA suspenderiam o bloqueio naval aos portos iranianos e aliviariam as sanções às exportações de petróleo do país.

Mas um acordo tão evidentemente distante dos objetivos originais de guerra de Trump quase certamente provocará uma reação negativa dentro dos EUA.

O memorando gerou protestos de democratas e de alguns dos próprios aliados de Trump, como o falecido senador Lindsey Graham, que rejeitaram termos que consideravam excessivamente favoráveis ao Irã.

É provável que um coro de vozes linha-dura, do apresentador da Fox News Mark Levin à agitadora digital Laura Loomer, também reaja duramente a qualquer novo acordo.

“Trump está encurralado”, disse Nasr. “Ele não pode vencer militarmente nesse nível… Não pode resolver isso pela via diplomática sem pagar um preço político em casa. E, de tempos em tempos, reage com agressividade porque isso não é tão simples nem tão direto quanto havia calculado.”

O risco é que Trump, frustrado com a falta de boas opções para encerrar sua guerra e sob pressão dos críticos, volte de forma abrupta à escalada —repetindo o padrão dos últimos meses.

Ele pode apresentar qualquer novo acordo como um “avanço político”, disse Vaez.

“Então, as críticas a esse avanço o irritam, e ele volta a recorrer à coerção. E, quando a coerção não produz resultados, precisa retornar a outra trégua improvisada, e o ciclo se repete.”

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