Regras foram deixadas de lado, diz diplomata sobre crise – 05/08/2026 – Mundo

A decisão do governo Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, foi uma medida absurda e sem sentido, de acordo com especialistas ouvidos pela Folha.

Para eles, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) agiu corretamente ao rejeitar o visto de funcionários do Departamento de Estado que viriam ao país para questionar o sistema eleitoral —Washington nega que esse seria o objetivo do envio dos diplomatas.

Essa decisão, somada à suposta demora de Brasília em conceder o agrément —aval diplomático— ao indicado de Trump à embaixada em Brasília, Daniel Perez, motivaram a revogação do visto de Viotti.

“[A medida] não faz nenhum sentido”, diz Rubens Barbosa, diplomata e ex-embaixador do Brasil nos EUA e no Reino Unido. Para ele, os americanos “fizeram tudo errado” no processo do agrément, que geralmente é sigiloso e ocorre antes do anúncio público do indicado e da sua apreciação pelo Legislativo do país de origem.

“Deixaram de lado 200 anos de regras diplomáticas, inverteram tudo e agora pressionam para que o Brasil acelere a nomeação”, afirma Barbosa. “Meu próprio agrément demorou mais de 30 dias, assim como o do meu sucessor [o diplomata Roberto Abdenur]. Os EUA estão errados.”

Passaram-se 35 dias entre a solicitação de agrément feita pelo governo Trump, no dia 30 de junho, e a revogação do visto da embaixadora brasileira, na terça-feira (4). O anúncio do nome de Perez, entretanto, veio no dia 1º de junho. O republicano e deputado estadual da Flórida foi aprovado em comitê do Senado dos EUA no último dia 22, e precisa agora passar pelo plenário, o que ainda não aconteceu.

“Tudo isso tem a ver com a interferência nas eleições“, continua Barbosa. “O governo americano interferiu em todas as últimas eleições na América Latina. Não é de se surpreender que tentasse fazer o mesmo aqui. O governo brasileiro, cujo líder é candidato, vai reagir para não perder a narrativa da soberania nacional, mas é importante que a crise não saia do controle”, afirma.

O presidente do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges, classificou de absurda a decisão de revogar o visto de Viotti.

“Ela é a primeira mulher a ser embaixadora em Washington e uma diplomata competentíssima”, afirmou. Borges destacou que a diplomata ocupou cargos de alto escalão nas Nações Unidas, ao lado do secretário-geral António Guterres, e disse que “quanto à competência dela, não há a menor questão”. Viotti também integra o conselho do Cebri.

Na avaliação de Borges, a decisão americana ocorre em um contexto de enfraquecimento da atuação diplomática dos EUA. Ele lembrou que Washington mantém dezenas de postos diplomáticos vagos e criticou a condução da indicação do novo embaixador americano para Brasília. “Foi uma deselegância. O governo brasileiro ainda estava examinando o pedido, não havia negado o agrément”, disse.

Ao comentar os canais de diálogo entre Brasília e Washington, Borges afirmou que a diplomacia brasileira buscou interlocução em diferentes momentos, inclusive durante as negociações sobre as tarifas impostas pelos EUA. “Não foi uma falta de vontade nem de esforço da diplomacia brasileira. A embaixadora e o vice-presidente Geraldo Alckmin [PSB] tentaram todo tipo de diálogo formal com o Departamento de Estado”, afirmou.

Ele atribuiu parte das dificuldades ao secretário de Estado americano, Marco Rubio. “O secretário de Estado é, talvez pela origem cubana e por alguma razão psicológica qualquer, o primeiro secretário de Estado americano que tem raiva do Brasil e não gosta nem dos países da América Latina. Não sei, acho que só Freud explica isso”, disse.

Segundo Borges, apesar da falta de abertura do governo americano, empresas brasileiras conseguiram avançar em negociações específicas por meio de representantes e escritórios de lobby nos EUA. “Não foi uma falta de diálogo do Brasil, foi uma falta de diálogo do Departamento de Estado americano.”

Questionado sobre a possibilidade de novas medidas contra o Brasil, Borges afirmou que não descarta uma escalada das tensões. Para ele, a política externa do governo Trump tem sido marcada por ações imprevisíveis e pelo desgaste nas relações com aliados tradicionais.

Apesar do momento de crise, Borges defendeu que a relação bilateral não deve ser comprometida. “Existe uma relação de Estado histórica e de grande afeição entre os dois países. É lastimável que o governo americano venha a comprometer uma relação de tantos séculos”, afirmou.

Para Barbosa, sempre houve certo atrito entre as relações bilaterais, o que é natural —mas, desta vez, há um agravante. “O Brasil tem uma posição importante no continente americano, e os EUA são a maior potência do mundo. É normal que haja divergências. Mas a crise se agrava por considerações ideológicas, tanto em Washington quanto em Brasília, e essa é a novidade”, diz o diplomata.

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