Enquanto monitora sinais de recuo do governo do presidente argentino Javier Milei após a escalada verbal dos últimos dias, o Itamaraty vê disposição do Paraguai para superar o mal-estar provocado por uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai.
Na sexta-feira (31), o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, se reuniu pela terceira vez na semana com o chanceler Mauro Vieira, em Brasília, para discutir a evolução da crise desencadeada pelas declarações de Javier Milei na convenção do PL que confirmou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência.
No evento, realizado em 25 de julho, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), de “lixo careca”.
A diplomacia brasileira segue monitorando os movimentos da Casa Rosada para definir a data do retorno de Bitelli a Buenos Aires. A avaliação é que o embaixador poderá voltar ao posto em breve, desde que não haja novas provocações por parte do governo argentino.
No Itamaraty, a percepção é que a estratégia de reagir à crise com a convocação do embaixador para consultas, sem ampliar o tom do confronto, começou a produzir efeitos.
Integrantes do governo apontam que a escalada promovida por Milei teve repercussão negativa dentro da própria Argentina, com diferentes setores manifestando preocupação com possíveis impactos econômicos.
A leitura do governo brasileiro é que a entrevista concedida na quarta-feira (29) pelo chanceler argentino, Pablo Quino, representou um sinal de que a Casa Rosada decidiu conter a escalada da tensão. Em entrevista a uma rádio local, o ministro afirmou que não deseja um rompimento da relação com o Brasil.
Paraguai
No caso do Paraguai, a avaliação do governo brasileiro é mais otimista. A percepção é que o governo do presidente Santiago Peña demonstra disposição para superar o incidente diplomático e retomar a agenda bilateral.
O Itamaraty considera que a reunião realizada também nessa sexta-feira entre o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, o vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana, e o chanceler Rubén Ramírez ajudou a reduzir a tensão provocada pela fala de Lula sobre a Guerra do Paraguai.
Na avaliação de integrantes do governo, a conversa permitiu que o Paraguai desse uma resposta à opinião pública doméstica sem ampliar o desgaste diplomático.
De acordo com fontes diplomáticas, o encontro, no qual o governo paraguaio apresentou formalmente seu desagrado com a declaração de Lula, ocorreu sem clima de confronto. O embaixador brasileiro explicou o contexto da fala do presidente e afirmou que não houve intenção de ofender o Paraguai nem seu povo.
O governo paraguaio, no entanto, reiterou o pedido de devolução de um canhão e dos demais “troféus de guerra”, além da entrega de cópias de todos os documentos históricos sobre o conflito que estão sob guarda do Brasil. Para Assunção, a medida representaria “um gesto de reparação” ao Paraguai.

