Natalie Victal, da SulAmérica, é “voz dissonante” e defende Selic em pausa

Enquanto a maior parte do mercado (89,4%) converge para a aposta de corte de 0,25 pontos-base na taxa Selic, Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica, se junta aos 9% que veem e defendem a manutenção dos juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os dias 4 e 5 de agosto.

Na análise de Victal, a atual conjuntura exige uma “cautela majorada”, e a recomendação dela no questionário que o Copom envia aos agentes do mercado é de que “o corte deveria ser zero”.

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“Panela de pressão”

Em entrevista ao InfoMoney durante a Expert XP, Victal defendeu que a desancoragem das expectativas está contaminando as projeções de inflação futuras, com média de projeção subindo para horizontes longos, como 2029 e 2030.

“Sou uma voz dissonante do mercado, defendo que o corte deveria ser zero, e faço isso há muito tempo. O Banco Central vem operando sobre uma incerteza muito elevada e, quando olho para as condições da economia brasileira, me parece que são condições que demandam uma cautela majorada, e isso demanda manter nossas defesas o máximo que puder. Porque, se houver uma turbulência e ela chegar aqui, o ideal é que estejamos com 11 na área para defender”, afirma.

Mesmo com a mais recente divulgação do IPCA-15 mostrando uma tendência de inflação mais contida, ela afirma que mantém a análise. “Continuamos com a visão de que deveria manter. A desancoragem das expectativas aumentou na margem, o cenário segue ruim”, afirma.

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Apesar de os juros estarem elevados há bastante tempo, comprimindo as margens das famílias e empresas, Victal destaca que a atividade não está recuando, haja vista os dados do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, o que mostram uma economia bastante resiliente. “É uma economia que não mostra sinais de fraqueza e tem um impulso fiscal e parafiscal muito grande. Se a economia virar, a gente muda o debate dos juros, mas não é isso que estamos vendo, por enquanto”, diz.

Ela afirma que as expectativas mais longas do mercado para a inflação, como as de 2029 e 2030, trazem médias maiores, que ainda não se refletem nas medianas, mas apontam uma insegurança à frente. “Quando a gente faz uma análise estatística do que é divulgado no Boletim Focus, a gente vê uma panela de pressão para 2029, com expectativas que já começam a subir e, quando a  gente junta tudo isso, nos parece ser um cenário complexo para continuar o ciclo de calibração”, diz, apontando um sinal de que o mercado está questionando a credibilidade da trajetória de metas.

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Para embasar o argumento, a SulAmérica conduziu um estudo estatístico sobre o histórico do Boletim Focus e identificou que o Brasil vive um momento de forte desancoragem, comparável a picos registrados no início dos anos 2000, embora em menor magnitude do que em 2002 e 2003.

Nesse ambiente, a inflação futura torna-se altamente correlacionada à inflação corrente. “O que aconteceu com 2029 foi que o corpo [da distribuição do Focus] está se movendo, então você tem mais pessoas no meio da distribuição que estão indo para cima do consenso”, explica Victal. Esse cenário já afeta o curto prazo: eventos recentes forçaram a equipe a alterar o balanço de riscos do IPCA deste ano — projetado em 5,2% — de “baixista” para “neutro”. 

Desejo vs. realidade

Victal faz uma distinção clara entre o que chama de “desejo” da autoridade monetária e a “realidade” dos dados. Enquanto o Banco Central sinaliza uma preferência em continuar o ciclo de cortes, Victal argumenta que os indicadores de atividade resiliente e o risco fiscal demandam pausa.

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Para ela, a economia brasileira tem mostrado um desempenho robusto — com mercado de trabalho forte e PIB acima do potencial — o que dificulta o processo de desinflação.

A equipe da SulAmérica projetava a reaceleração do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre e mantém, há mais de sete meses, o mesmo cenário-base de crescimento para a economia. Essa firmeza da atividade é sustentada por um mercado de trabalho muito resiliente, que formou um “colchão” para o consumo das famílias, impulsionado também por fatores como isenções pontuais de Imposto de Renda e forte concessão de crédito livre pelos bancos. 

O alerta fiscal feito pela economista vai além dos ruídos de curto prazo e esbarra no risco demográfico do país. Victal critica decisões recentes do Congresso que, segundo ela, caminham na direção contrária ao ajuste necessário para uma população que envelhece rapidamente.

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Ela cita a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que criou um novo regime especial de previdência — rompendo o esforço de unificação da última reforma — e as articulações políticas para ampliar o limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI). Na prática, essas medidas estimulam a fuga de contribuintes do regime de carteira assinada para modelos com menor carga tributária, reduzindo a arrecadação da Previdência Social no longo prazo e enrijecendo ainda mais o orçamento público. 

E, manter a inflação sob controle não é uma demanda só do mercado, segundo a economista. Indo além dos números técnicos, Victal ressalta trata-se, também, de uma política social, já que a inflação corrói o poder de compra da população, especialmente daqueles que não têm proteção financeira, como trabalhadores informais e beneficiários do Bolsa Família.

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Victal relembra o período de 2014 a 2016 para alertar que conduções “voluntaristas” da política econômica geram danos profundos, como recessão e aumento da pobreza, algo que o país deve evitar repetir ao manter a proteção frente a um mundo mais instável.

O quadro doméstico torna-se mais delicado quando exposto às incertezas externas. O cenário-base da SulAmérica prevê que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) não subirá juros no segundo semestre, mas um revés nessa premissa seria punitivo.

Um dólar fortalecido em âmbito global faria o real sofrer acima da média devido à fragilidade fiscal brasileira, o que impulsionaria revisões de alta na inflação. “O ambiente internacional não necessariamente é o determinante, mas ele amplifica ou amortece os nossos problemas”, avalia Victal, reforçando a urgência de o Brasil manter suas “defesas altas”. 

Apesar de sua posição ter sido isolada inicialmente, Victal observa que a probabilidade de manutenção da taxa (pausa) começou a subir no mercado recentemente. Para ela, a “realidade se impõe” e o Banco Central não pode correr o risco de ser visto como um órgão que deseja cortar juros “a qualquer custo”, sob pena de perder ainda mais credibilidade perante os agentes econômicos.

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