Falas de Trump miram cada vez mais os outros, diz análise – 26/07/2026 – Mundo

Confiança, expectativa e alegria. Estas são as emoções que Donald Trump exprime com maior frequência em falas públicas. O padrão acompanha a carreira política do atual presidente americano, de 2015 —na pré-campanha de seu primeiro mandato— até 9 de fevereiro de 2026, período analisado pela Folha.

O levantamento da reportagem foi feito a partir de dados de 4.000 falas públicas dele nesse intervalo de tempo. A base reúne discursos preparados, comentários pontuais, debates eleitorais e declarações à imprensa ou à sua própria rede social, em vídeos.

As falas somam 20,5 milhões de ocorrências de palavras. Elas foram analisadas com o auxílio de algoritmos de aprendizagem de máquina para processamento de texto em grande volume e classificadas por uma metodologia de análise lexical de emoções; é possível ler mais sobre essa metodologia ao fim da reportagem.

Mesmo diante de públicos diferentes, o perfil emocional dos discursos de Trump pouco se altera. Falando com jornalistas, o público geral ou outros candidatos, confiança e expectativa seguem como as emoções dominantes. Ele é mais alegre em discursos, mas expressa confiança com maior frequência em entrevistas.

Apesar de prevalecer sobre as demais, sua confiança não é inabalável. O auge dessa emoção ocorreu na primeira metade do primeiro mandato e, depois, por um breve período com ele fora da Presidência.

Trump usa, em média, 12,9 palavras por oração e recorre com frequência aos mesmos termos. Excluindo preposições, artigos e conjunções, as 50 palavras mais usadas chegam a 33% do total.

A variedade vocabular de Trump diminuiu ao longo dos anos. Outros levantamentos também indicam limitações nas frases e no vocabulário do presidente.

Um estudo da Universidade de Chicago que compara o republicano a outros candidatos à Presidência dos Estados Unidos desde 1960 indica que ele usa as sentenças mais curtas, simples e repetitivas dentre todos, o que constitui um estilo próprio.

Além disso, sua linguagem é considerada divisiva, já que se expressa para atacar e deslegitimar oponentes, mostra o estudo.

Outra análise, dos linguistas Jesse Egbert e Douglas Biber, indica que Trump usa muito as mesmas palavras e que seus termos são pouco compartilhados por outros políticos.



Joe Biden tem sido um pesadelo para Israel e para os americanos e —tão ruim quanto se pode ser, mas o Joe corrupto tem sido um presidente dos sonhos para terroristas islâmicos radicais. Um sonho absoluto

A hostilidade também aparece no levantamento da Folha. Quando as falas são sobre outros —ou seja, com os pronomes como “eles” e “deles”—, têm alta correlação com emoções como medo e raiva. Nesses casos, também diminuem os sentimentos de alegria e confiança.

Ao longo dos anos, falar mais dos outros, em especial cidadãos e países estrangeiros, tornou-se mais recorrente, como outros levantamentos também mostram.

As transições emocionais mais notáveis nas falas do presidente americano ocorrem em paralelo a momentos políticos de impacto.

O final de 2018, no seu primeiro mandato, trouxe reveses para o republicano; a partir daí, raiva e medo predominam. Em setembro, o jornalista Bob Woodward publicou “Medo: Trump na Casa Branca”, que traça um perfil crítico de sua gestão.

Em dezembro, o ex-advogado do presidente Michael Cohen foi preso por violação das leis de financiamento de campanha eleitoral e falso testemunho ao Congresso. Cohen assumiu ter pago pelo silêncio de duas mulheres sobre supostos relacionamentos que mantiveram com Trump.

No final daquele mês ocorreria, ainda, a maior paralisação da história do governo americano até aquele momento. Um impasse entre o mandatário e o Congresso sobre a definição do orçamento federal levou a 35 dias de “shutdown”, quando agências federais interromperam serviços não essenciais.

A derrota nas eleições para Joe Biden, em 2020, e a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, marcam um período de queda brusca na confiança, que chega a seu ponto mais baixo nas falas do republicano desde 2015.

Há uma recuperação breve na confiança, que volta ao patamar elevado do começo da primeira gestão, entre 2021 e 2022. Naquele momento, Joe Biden ocupava o Salão Oval, enquanto Trump viajava pelo país em comícios e concedia entrevistas a aliados. Foi também quando o empresário lançou seu conglomerado de mídia, que viria a criar a rede social Truth Social, em fevereiro de 2022.

Raiva e nojo formam o par mais frequente antes de Trump assumir a presidência em 2017, seguido pela usual associação entre raiva e medo em sua primeira gestão. Esse padrão continua durante o governo de Joe Biden até a nova vitória de Trump, em 2024. No segundo mandato, a tristeza passou a integrar o par mais frequente junto com a raiva.

Metodologia

O levantamento considerou 3.925 falas de Trump desde o início de sua trajetória como pré-candidato à Presidência. As falas são disponibilizadas no site Roll Call, que reúne declarações à imprensa, entrevistas e exclusivas, debates, discursos e pronunciamentos dos presidentes e vice-presidentes americanos.

Foram excluídas as perguntas de entrevistadores. O fato de todas as falas serem em inglês facilitou o uso desses modelos, originalmente criados nesta língua. A situação em que o vocabulário foi usado –por exemplo, em falas informais, entrevistas ou em debates– ajudou a contextualizar a análise automatizada.

A reportagem usou programação em Python para identificar classes gramaticais, variedade lexical e polaridades de sentimentos nas falas. Aplicou o léxico de emoções NRCLex, do Conselho Nacional de Pesquisa do Canadá. Esse modelo de classificação foi proposto pelos pesquisadores Mohammad Saif e Peter Turney. Os cientistas da computação se basearam na obra do psicólogo evolucionista Robert Plutchik, que propôs uma tipologia das emoções básicas do ser humano.

Nesse modelo, as emoções se organizam do mesmo modo que as cores num círculo cromático, de acordo com a proximidade de seus matizes e tons. Assim como as cores quentes ficam próximas entre si e se opõem às cores frias, emoções similares aparecem lado a lado e se opõem àquelas que significam o seu contrário.

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