Inadimplência ameaça o próximo motor de crescimento econômico da Argentina

A inadimplência continua aumentando na Argentina, frustrando as esperanças de que o sofrimento econômico provocado pelo duro programa de austeridade do presidente Javier Milei já tivesse atingido seu pico.

Milei reduziu a inflação, que estava em três dígitos, e fez a economia argentina voltar a crescer desde que assumiu o cargo, em 2023. Seu plano de reformas rendeu ao país uma série de elevações na classificação de risco soberano, a mais recente concedida na terça-feira pela Moody’s Ratings, embora a Argentina continue profundamente em território especulativo.

O governo contava com uma retomada do crédito ao consumidor para ampliar uma recuperação liderada pelas exportações por meio de um fortalecimento dos gastos das famílias, aumentando, com o tempo, as chances de reeleição de Milei em uma disputa difícil no próximo ano.

Em vez disso, impulsionada pelo forte aumento das taxas de juros no ano passado, a inadimplência em empréstimos ao consumidor — incluindo cartões de crédito, financiamento de veículos e outros bens — subiu por 17 meses consecutivos, atingindo em abril 12, 1%, o maior nível em duas décadas, segundo os dados mais recentes do banco central.

A consultoria local 1816 Economía & Estrategia estima que mais de um quarto dos tomadores de crédito já não são considerados aptos a obter novos empréstimos, impedindo que os consumidores se tornem um motor mais relevante da economia, como ocorre em países vizinhos, como o Brasil.

“Você ficou sem políticas para estimular a economia”, afirmou Miguel Kiguel, ex-secretário de Finanças da Argentina e atual diretor-executivo da consultoria EconViews. “O estímulo fiscal está fora de questão porque não há dinheiro, e o crédito está sendo limitado justamente por causa da inadimplência.”

Autoridades do banco central esperam que a inadimplência tenha atingido o pico em junho, em parte porque as taxas de juros se estabilizaram nos últimos meses, segundo uma apresentação divulgada no fim do mês passado. Mas economistas e banqueiros esperam apenas uma recuperação gradual, argumentando que o crédito às famílias dificilmente se tornará um motor relevante da atividade econômica antes das eleições de outubro de 2027.

Ponto de vista dos bancos

Os bancos, que expandiram agressivamente a concessão de crédito à medida que as condições econômicas se estabilizavam desde o primeiro ano do governo Milei, viram esse boom do crédito se voltar contra eles. Os empréstimos inadimplentes ao consumidor não atingiam níveis tão elevados desde o período posterior à crise argentina de 2001-2002. Isso contribui para um dos piores anos do setor em termos de rentabilidade desde a pandemia e pesa sobre as ações das instituições financeiras.

“É uma consequência lógica, porque no ano passado os bancos voltaram a agir como bancos”, disse o ministro da Economia, Luis Caputo, durante um evento neste mês. “Antes, eles simplesmente captavam depósitos e os emprestavam ao Tesouro ou ao banco central. Nesse novo papel, o crédito cresceu rapidamente e, como parte desse processo, a inadimplência aumentou porque as taxas de juros no ano passado estavam muito, muito altas.”

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Os bancos inicialmente consideraram essa deterioração temporária. Mas têm adiado repetidamente as expectativas sobre quando a qualidade do crédito irá melhorar, ao mesmo tempo em que se tornam cada vez mais seletivos na concessão de novos empréstimos.

“Continuamos vendo que esses segmentos permanecem problemáticos”, afirmou Gonzalo Fernández Covaro, diretor financeiro do Grupo Financiero Galicia, durante a teleconferência de resultados da empresa em maio, citando a estagnação da renda das famílias como uma das razões para a lenta recuperação. “A expectativa é que, ao longo do ano, à medida que a inflação continue caindo e a economia cresça”, acrescentou, “possamos voltar a conceder crédito para diferentes segmentos. Mas, até agora, ainda não estamos vendo isso.”

A questão se tornou importante a ponto de as autoridades começarem a incentivar os bancos a refinanciar clientes inadimplentes. Os bancos estatais Banco Nación e Banco Ciudad lançaram programas de reestruturação que ampliam os prazos de pagamento e reduzem os custos dos empréstimos, enquanto o ministro da Economia, Luis Caputo, elogiou publicamente iniciativas semelhantes adotadas por instituições financeiras privadas.

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Transição econômica

Economistas afirmam que as dificuldades financeiras das famílias refletem mais do que um aumento temporário da inadimplência. A Argentina passa por uma rara transição: de um sistema financeiro moldado pela inflação crônica e pelo financiamento do governo para outro em que os bancos voltam a obter lucros avaliando o risco de crédito e emprestando recursos a consumidores e empresas.

Durante décadas, a inflação elevada desestimulou a concessão de crédito na Argentina, deixando o país com um dos sistemas bancários menos dependentes de crédito da América Latina. Grande parte da receita dos bancos vinha das tarifas cobradas e do financiamento ao setor público, e não da concessão de empréstimos a famílias e empresas.

Embora a inflação anual na Argentina, em torno de 30%, ainda seja elevada em comparação com a dos Estados Unidos, de cerca de 3,5%, ela caiu de mais de 200% registrados ainda em 2024. Para tomadores de crédito acostumados a ver o valor real de suas dívidas diminuir rapidamente com o tempo, essa mudança exigiu uma grande adaptação.

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“A redução da inflação tem um efeito significativo sobre a velocidade com que as dívidas perdem valor, o que é muito diferente do que ocorreu durante boa parte dos últimos anos”, afirmou Marcelo De Gruttola, analista da Moody’s Ratings em Buenos Aires. “Houve uma mudança muito rápida e significativa no ambiente macroeconômico, e isso alterou o comportamento dos tomadores de crédito de maneiras difíceis de prever.”

Os argentinos mais endividados tendem a viver longe da cidade de Buenos Aires, centro de maior riqueza do país, onde apenas 16% dos adultos estão com empréstimos em atraso. Em várias províncias do interior, essa taxa é o dobro, segundo a consultoria Equilibria.

O baixo crescimento dos salários e um mercado de trabalho enfraquecido dificultaram que muitas famílias quitassem suas dívidas, enquanto os bancos endureceram os critérios para concessão de crédito e passaram a direcionar novos empréstimos para empresas com menor risco. Como consequência, o crédito ao consumidor passou a desempenhar um papel muito menor na recuperação econômica do que muitos economistas esperavam.

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Mesmo após quase dobrar desde que Milei assumiu a Presidência, o volume de crédito ainda equivale a apenas cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, maior economia da América Latina, essa proporção está mais próxima de 80%.

Há muito tempo os investidores veem o sistema bancário argentino como um dos principais beneficiários da estabilização macroeconômica do país, com base na expectativa de que exista amplo espaço para a expansão do crédito quando os balanços financeiros das famílias se recuperarem.

Esse otimismo, porém, diminuiu. As ações dos bancos argentinos tiveram desempenho inferior ao do índice Merval — mais amplo e fortemente concentrado no setor de energia — à medida que os investidores avaliam os efeitos negativos da deterioração da qualidade do crédito e da proximidade das eleições.

“Os bancos tendem a ser mais sensíveis às incertezas macroeconômicas e políticas”, afirmou Ola El-Shawarby, gestora de portfólio de ações da VanEck, em Nova York. “Embora nossa visão de longo prazo continue positiva, neste momento vemos oportunidades mais atraentes no setor de recursos naturais.”

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