Moraes, Gilmar e o supremo cinismo

No dia 25 de junho de 2026, durante o julgamento sobre a Lei da Improbidade Administrativa, Alexandre de Moraes criticou a prática de instaurar inquéritos civis com base em notícias plantadas pela imprensa, especialmente em períodos eleitorais. Ele expressou preocupação com o impacto disso no Estado de Direito. No entanto, sua fala foi vista como cínica, pois em fevereiro de 2024, Moraes havia determinado a prisão preventiva de Filipe Martins com base em uma notícia falsa, mantendo-o preso por seis meses sem revisã

Na quinta-feira, 25 de junho de 2026, Alexandre de Moraes tomou a palavra durante o julgamento sobre a Lei da Improbidade Administrativa e disse o seguinte: “Há inquéritos civis que são instaurados, hoje diminuiu um pouco, mas o membro do Ministério Público tem uma notícia, aí ele passa ‘em off’ para a imprensa, a imprensa publica, e ele instaura o inquérito civil com a notícia de jornal que ele plantou”. Acrescentou, com o tom grave de quem se preocupa com o Estado de Direito, que “uma investigação no inquérito civil para um agente público, um agente político, às vésperas de eleição, é mais grave ainda. Para depois, eventualmente, passada a eleição, ser arquivado”.

Parece incrível, mas era mesmo Moraes falando. O mesmo sujeito que, em fevereiro de 2024, assinou a prisão preventiva de Filipe Martins com base, entre outros fundamentos, numa notícia do portal Metrópoles segundo a qual o ex-assessor presidencial havia viajado aos Estados Unidos com Jair Bolsonaro. A defesa de Martins contestou a informação imediatamente, apresentando documentos que provavam que a viagem jamais ocorreu. O próprio governo americano confirmou que Martins não havia entrado no país. A notícia era falsa. Martins ficou preso por seis meses. Moraes não reviu a prisão.

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Há um nome para o que Moraes fez com Martins. É exatamente o nome que ele usou na quinta-feira para descrever uma prática condenável do Ministério Público: instaurar investigação com base em notícia de jornal plantada, para desgastar um agente público, preferencialmente às vésperas de eleição. O agravante é que Moraes não é promotor, mas ministro do STF, e o fez com base numa notícia falsa, contra réu que nem sequer havia sido formalmente denunciado, mantendo-o preso por seis meses numa aberração jurídica já internacionalmente conhecida.

O cinismo da declaração de quinta-feira não está apenas na contradição factual — está na sua estrutura psicológica. Moraes não cometeu um deslize, não esqueceu o caso Martins. Ele simplesmente não considera que o que fez se encaixa na categoria que está criticando. Para a mente do psicopata, as regras que enuncia valem única e exclusivamente para os outros. Segundo a régua do assim chamado “Careca do Master”, um inquérito baseado em notícia plantada é uma prática condenável quando o Ministério Público a usa contra quem ele quer proteger. Mas, quando é Moraes que o utiliza contra quem quer destruir, chama-se jurisdição.

Gilmar Mendes, que acompanhou o debate, reforçou “a necessidade de maior responsabilidade no manejo dessas ações”. Os dois, juntos, os assassinos do Estado de Direito no Brasil, discursando em plenário sobre responsabilidade processual. É o tipo de cena que dispensa comentário — pede apenas que se registre, para a posteridade, quem são os homens que a protagonizam e que tipo de sociedade os permitiu.

Leia também: “O PT afunda no pântano do Master”, reportagem publicada na Edição 328 da Revista Oeste

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