O senador Jaques Wagner (PT-BA) confirmou ter uma relação pessoal com o empresário Augusto Lima, mas negou qualquer favorecimento em decorrência disso. Ele criticou a forma como a Polícia Federal conduziu a Operação Compliance Zero e a divulgação de imagens de dinheiro apreendido. Wagner também comentou a negociação de um apartamento para sua filha e os pagamentos de R$ 3,5 milhões à empresa de sua nora.
O senador Jaques Wagner (PT-BA) admitiu manter uma relação pessoal com o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, mas negou que a proximidade tenha resultado em favorecimento pessoal. O parlamentar deu as declarações em entrevista divulgada nesta sexta-feira, 26, no jornal Folha de S.Paulo.
Na entrevista, o petista detalhou encontros com Vorcaro, explicou a negociação de um apartamento destinado à filha e afirmou que reclamou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva da forma como a Polícia Federal (PF) conduziu a operação da qual virou alvo.
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Ao falar da Operação Compliance Zero, Wagner criticou a divulgação da imagem das cédulas de dinheiro apreendidas durante as buscas autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o senador, a exposição contrariou a própria decisão judicial que determinava discrição no cumprimento dos mandados.
“Para que aquela patacoada de dinheiro em cima da cama com o escudo da PF?”, perguntou Wagner. “Esse processo era comum na Lava Jato. Se a Polícia Federal vai continuar nesse tipo de espetacularização, acho que o chefe da Polícia Federal tem de tomar conta. Aí, quem tem de cuidar disso é o ministro da Justiça, o chefe da Polícia Federal ou o próprio ministro André Mendonça.”
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Segundo Wagner, Lula também o indagou mais de uma vez sobre eventual envolvimento no caso Master. “O presidente várias vezes me perguntou, e continuo afirmando para ele: não tem nenhuma relação comercial entre mim e Augusto Lima, muito menos com o Master”, afirmou.
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Na entrevista, Wagner confirmou que conheceu Augusto Lima durante o processo de privatização da Cesta do Povo, na Bahia, e que a convivência entre ambos se manteve ao longo dos anos. Para o senador, esse relacionamento é compatível com a atuação de qualquer gestor público.
“Eu poderia ter uma consultoria, não poderia?”, perguntou Wagner. “Não tenho. A Polícia Federal está construindo uma tese de que essa empresa da minha nora na verdade foi construída para me servir. Não tenho nada a ver com a empresa.”
Na sequência, Wagner disse desconhecer “um prefeito ou um governador que não converse com empresários”. “Óbvio que conversei com Augusto Lima”, acrescentou.
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Wagner criticou o que chamou de “retórica hipócrita”, ao comentar o avanço das investigações da PF. “Tenho relação com uma porção de gente”, lembrou. “Aí, o cara diz para mim: na terça-feira, estou indo para Brasília, quer ir de carona? Vou, qual o problema? Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando pego carona.”
Para o senador, a PF precisa comprovar se sua relação com o Master é espúria. “Eles inventaram que trabalhei pelo Banco Master”, disse. “E nunca trabalhei a favor, trabalhei contra. Como, aliás, o então ministro da Fazenda [Fernando Haddad] veio a público declarar.”
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Ao ser indagado sobre Vorcaro, Wagner afirmou que o encontrou apenas duas vezes. A primeira delas ocorreu quando o ex-banqueiro ingressou no Master. A segunda foi em São Paulo, quando apresentou o então ex-ministro Ricardo Lewandowski a Vorcaro para discutir uma possível consultoria jurídica.
“O Augusto Lima disse: ‘A gente precisa melhorar o padrão do banco. Você tem alguma sugestão para a área jurídica?’. Eu disse: ‘O ministro Lewandowski tem pouco tempo que se aposentou, não vejo outro nome melhor. Não sei se ele quer’.”
Apartamento e pagamentos à empresa da nora
Wagner também comentou a negociação de um apartamento em Salvador, mencionado pela PF na investigação. Segundo ele, o imóvel seria comprado para a filha e nunca chegou a integrar seu patrimônio. “Pretendia dar um presente para minha filha nesse prédio que está em construção”, disse.
“A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção?”, indagou Wagner. “Por que não ia pegar um apartamento novo pronto? Digo: ‘Não tenho condições de comprar, ela vai ter de vender o apartamento dela para eu ajudar no resto e financiar uma parte. Só quero que garanta aquilo lá’. Foi isso.”
Sobre os pagamentos de R$ 3,5 milhões feitos pelo Master à empresa da qual sua nora é sócia, o senador disse que essa é uma pergunta que “só a PF poderia responder”. Afirmou que as operações estão registradas na empresa e negou que os valores tivessem como destino sua pessoa. “Caiu alguma coisa minha aqui?”, perguntou. “Estou muito tranquilo.”
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Ao ser indagado se não tinha conhecimento do montante, Wagner disse ter tomado “um susto, porque não é pouca coisa, é muita coisa”. “Mas repare: é muita coisa legalmente, tem contrato.”
“Aliás, os meninos dizem que não pagaram nem o que deveriam ter pago a eles, tá?”, disse Wagner. “Quando viram um volume que ia crescendo muito, mudaram o tipo de contrato. Mas prefiro que o advogado explique. O gozado é que se apegam aos R$ 3,5 milhões, que foi o rompimento. Mas, antes disso, mês a mês, eles ganhavam. Não sei quando deu no total, mas foi uma grana boa.”

