Eleito na Colômbia precisará lidar com guerrilhas armadas até com drones

O primeiro registro de uso de drones por grupos criminosos na Colômbia se deu em 2018. O primeiro ataque com esse novo equipamento, em 2019. Em cinco anos, o número de ofensivas em 12 meses já chegava a 61, número que aumentou 445% em 2025, chegando a 333.

O eleito neste domingo (21) para a Presidência da Colômbia precisará lidar com o aumento exponencial do uso de drones pelas guerrilhas registrado pelo Ministério da Defesa do país. O cenário se dá menos de dez anos após os Acordos de Paz encerrarem o conflito armado com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016.

De acordo com relatório da UNMAS, agência da ONU para retirada de minas, divulgado neste mês, os incidentes se concentram nas regiões que, no passado, foram mais impactadas por grupos armados —63% nos departamentos de Nariño, Cauca e Valle del Cauca, no sul do país, e 7% na região de Norte de Santander e Catatumbo.

O caso da Colômbia segue a tendência de outros conflitos ao redor do mundo —só na América Latina, México, Venezuela, Equador e Peru também foram afetados por veículos aéreos não tripulados com explosivos, segundo o mesmo documento.

Na Colômbia, porém, o cenário se entrelaça com as particularidades de um país que enfrentou seis décadas de guerra civil e ainda não conseguiu desarmar todas as suas guerrilhas.

“Após os esforços de desmobilização dos Acordos de Paz, ficou uma estrutura ali”, afirma o advogado Bruno Langeani, analista da organização britânica Conflict Armament Research e consultor do Instituto Sou da Paz. “Isso faz com que o que foi empregado em termos de armas esteja numa escala diferente do que a gente vê em outros enfrentamentos.”

Essa estrutura, diz ele, inclui um exército de pessoas que atuaram no conflito, como membros das Farc e paramilitares, que se viram —de uma hora para a outra— sem trabalho.

“Imagine ter dezenas de milhares de pessoas com muito conhecimento em armamentos explosivos e táticas militares, e que, de repente, não não tem mais emprego. Se o Estado não participa dessa desmobilização, para que essas pessoas encontrem outras fontes de rendas legais, você cria potenciais mercenários”, afirma.

Nos últimos anos, mercenários colombianos estiveram envolvidos em episódios como o assassinato de Jovenel Moïse, então presidente do Haiti na época da sua morte, em 2021, e, mais recentemente, naquele que se tornou o local mais avançado do uso de drones na guerra: a Ucrânia.

“Há uma transferência de tecnologia. E quando você observa os drones apreendidos, vê semelhanças muito grandes com o que está sendo feito em vários lugares do mundo”, diz Langeani.

De acordo com Gerson Arias, pesquisador da organização colombiana FIP (Fundação Ideias para a Paz), não há números precisos sobre de onde esses equipamentos vêm, mas ele estima que um terço seja importado de forma ilegal ao país por nações como a Rússia, que contam com a ajuda da vizinha Venezuela como intermediário.

A maior parte, no entanto, ainda é comprada legalmente em plataformas de vendas e lojas, uma vez que drones são um equipamento multiuso —o que é parte do impasse no combate a esse tipo de arma. A regulação é um desafio devido ao impacto que uma restrição severa poderia gerar em setores tão diversos como agricultura, entretenimento e segurança.

No segundo caso, a ferramenta é adaptada pelos grupos criminosos para se tornar uma arma. De acordo com o relatório da UNMAS, em 2025 foram registrados 414 incidentes envolvendo artefatos explosivos improvisados, incluindo aqueles feitos a partir de drones, ante 167 em 2024.

Esse cenário mudou a dinâmica do conflito. “Hoje, com 6 milhões de pesos colombianos [quase R$ 9.000], um homem à distância pode destruir um helicóptero de US$ 10 milhões, por exemplo”, diz Arias. “Isso não ocorre da noite para o dia e tem a ver com a falta de regulamentação.”

Em termos de mortes, o Ministério da Defesa afirma que houve um aumento de 102% nas baixas por ataques de veículos aéreos não tripulados entre 2023 e 2025 —o número foi de 464 para 938 em dois anos. No caso de mortes de civis, a cifra não é tão clara.

Episódios envolvendo pessoas sem relação com o conflito, porém, chocam o país de tempos em tempos. O mais recente ocorreu nesta sexta-feira (19), em Catatumbo, no departamento de Norte de Santander, e matou o menino Dylan Jesús Lobo, 10, deixando vários membros de sua família feridos, incluindo outras crianças.

“Hoje, a Colômbia lamenta a perda de Dylan Jesús. Seu nome não pode se tornar apenas mais uma estatística na violência. Deve ser um apelo coletivo para proteger as crianças e construir um país onde nenhuma criança jamais morra por causa da guerra”, afirmou o Ministério da Educação neste sábado (20).

Em janeiro, o governo de Gustavo Petro, que chegou ao poder sob a promessa de conseguir a “paz total” por meio da negociação com as guerrilhas dissidentes das Farc, anunciou um investimento de US$ 1,6 bilhão para a construção de um escudo antidrones.

“Trata-se da estratégia de defesa do espaço aéreo mais ambiciosa e audaciosa do país, destinada a proteger a população civil e os membros das forças de segurança do uso de drones por grupos armados que atuam fora da lei”, afirmou a Presidência na ocasião.

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