Vitória de Mendonça embala caso Master e preocupa Alcolumbre

O recente julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) em que o ministro André Mendonça conseguiu manter as prisões do pai e do primo do banqueiro Daniel Vorcaro e a ação da Polícia Federal que colocou o senador Jaques Wagner (PT-BA) no centro do escândalo do Master alarmou classe política em Brasília, especialmente no Senado.

Na própria terça (17), dia da decisão sobre as prisões, vieram à tona mais detalhes da relação de Vorcaro com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), investigado por tentar favorecer o Master no Congresso em troca de mesadas que somaram R$ 6 milhões, pagamentos para uma empresa familiar e viagens de luxo.

Nesta quinta (18), o alvo da 9ª fase da Operação Compliance foi o senador Jaques Wagner (PT-BA). Ele é suspeito de receber um apartamento de R$ 2,4 milhões, além de um repasse de R$ 3,5 milhões para uma empresa de seu núcleo familiar e luxos como viagens de avião, helicóptero, hospedagens e ingressos para camarotes em shows.

A operação de busca e apreensão na residência do petista gerou reação imediata do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que também pode virar alvo das investigações pela ligação com o gestor do fundo de pensão dos servidores do Amapá, que investiu R$ 400 milhões em títulos podres do Master.

Em entrevista à imprensa, Alcolumbre defendeu a presunção de inocência de Wagner e criticou parlamentares que comemoram operações contra rivais. “Muitas autoridades já foram vítimas dessa execração pública e no passar do tempo a maioria delas provou que no decorrer das investigações conseguiu provar a sua inocência”, afirmou.

Na quarta (17), em pronunciamento na cadeira de presidente, Alcolumbre repudiou reportagem publicada na revista Veja segundo a qual Vorcaro teria dito, em sua proposta de delação, que teria enviado a ele US$ 30 milhões em contas no exterior (cerca de R$ 155 milhões). A proposta de colaboração foi recusada pela Polícia Federal e depois pela Procuradoria-Geral da República (PGR). A Gazeta do Povo não conseguiu confirmar as informações da Veja com fontes independentes.

No discurso, Alcolumbre negou o recebimento do dinheiro e afirmou que os responsáveis pelo vazamento da informação, que reputou como falsa, estariam desferindo um “ataque ao Senado, ao Poder Legislativo e à sua autonomia”. Ele argumentou que, se o relato não estiver na delação de Vorcaro nem nas investigações da PF, sua disseminação seria uma forma de intimidar o Congresso.

“É extremamente grave que uma narrativa possa nascer desta forma, sem ter sido afirmada por ninguém e ainda ser apresentada ao país como se fosse verdadeira. Nesse caso, não estamos apenas diante de uma mentira sobre mim. Estamos diante de uma mentira sobre os próprios fatos e sobre o conteúdo de um procedimento oficial. Isso não constrange apenas o presidente do Congresso Nacional, constrange as instituições, constrange os órgãos de investigação, constrange o sistema de Justiça e exige a apuração rigorosa de todos, absolutamente todos os responsáveis”, afirmou.

Depois da fala, Alcolumbre recebeu apoio de senadores de diversos campos, como Rodrigo Pacheco (PSD-MG), Esperidião Amin (PP-SC) e Hamilton Mourão (Republicanos-RJ). Todos se alinharam à ideia de que as investigações não podem atingir a instituição e servir para constranger a atividade parlamentar, sugerindo com isso que o avanço da Compliance Zero poderia servir a interesses políticos.

Um ponto comum e relevante nas investigações relacionadas a Ciro Nogueira e Jaques Wagner é a suspeita da PF de que eles teriam recebido vantagens indevidas de Vorcaro ou de seu ex-sócio Augusto Lima – dinheiro, investimentos ou itens valiosos – em troca de favorecimento ao banco dentro do Senado, no apoio à chamada “emenda Master”.

Trata-se de uma proposição apresentada por Ciro Nogueira em 2023 para aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), caixa alimentado pelos bancos para ressarcir investidores quando uma instituição quebra.

O Master cresceu no mercado oferecendo essa garantia para vender títulos CDBs que rendiam muito acima do mercado. Quando o banco foi liquidado pelo Banco Central, no ano passado, o FGC pagou R$ 40 bilhões para ressarcir os clientes lesados. Se a emenda Master tivesse sido aprovada, o prejuízo poderia ter sido bem maior.

Ciro Nogueira e Jaques Wagner dizem que é comum parlamentares receberem pressão de empresários de variados setores para atender seus interesses. Nesta quinta-feira (18), em entrevista à BandNews, o petista afirmou, no entanto, que no caso da emenda Master, ele orientou voto contrário, como líder do governo no Senado.

Na terça (17), no julgamento da prisão do pai e do primo de Vorcaro, Mendonça avisou que “tem mais coisa por vir”. Ele se referia a novas quebras de sigilo determinadas na investigação do Master. Na sessão, em que o ministro conseguiu manter as prisões dos empresários Henrique e Felipe Vorcaro, ele chamou a atenção dos colegas para diversas manobras para comprometer a investigação ou anular eventuais condenações.

Apontou, por exemplo, tentativas de comprar o silêncio de testemunhas, de criar vícios artificiais no processo e até de direcionar a delação de Vorcaro, com a apresentação de uma proposta “seletiva”. “A investigação, no que depender de mim, seguirá seu curso”, afirmou o ministro Mendonça, ao afirmar que “não faz questão de delação”.

“Parece que certos atores atuam para criar um vício. Há um sistema articulado para isso. Eu não sou cego, estou acompanhando, estou assistindo aos movimentos”, disse, criticando depois “tentativas de obstaculizar as investigações”, algo “gravíssimo”.

Atento a possíveis ataques à operação, especialmente da classe política, Mendonça tem adotado parcimônia nas ações. Na investigação contra Ciro Nogueira, por exemplo, o ministro o proibiu inicialmente contato com o irmão do senador, cuja empresa recebeu dinheiro de Felipe Vorcaro. Posteriormente, a pedido de Ciro, Mendonça liberou o contato entre os dois, em virtude da relação familiar.

Na operação contra Jaques Wagner, Mendonça não restringiu o contato dele com o enteado suspeito de receber dinheiro de Augusto Lima e ainda recusou um pedido da PF para fazer busca e apreensão em seu gabinete no Senado. Mendonça considerou não haver indícios de que o local teria provas da relação do senador com Augusto Lima.

O tom e o alcance limitado das medidas respondem a críticas feitas no Congresso e dentro do STF contra investigações que possam “criminalizar a política”. A expressão foi largamente usada para desmontar a Lava Jato.

Na terça-feira (16), Mendonça respondeu a diversas afirmações do ministro Gilmar Mendes de que Compliance Zero estaria repetindo métodos da Lava Jato.

O decano criticou “vazamentos seletivos” que expuseram a intimidade de Vorcaro (referência a mensagens de celular com sua ex-noiva); uma suposta pressão sobre o ex-banqueiro para delatar, com sucessivas mudanças do local de prisão, inclusive para penitenciária federal de segurança máxima; além da prisão de seu pai e do primo que, para o ministro, também teriam como objetivo forçá-lo a colaborar com a investigação.

Mendonça rebateu todos esses pontos no julgamento e acabou convencendo Nunes Marques a votar a favor da prisão de Henrique e Felipe Vorcaro. O ministro, que entrou no STF com apoio explícito de Ciro Nogueira, vinha sendo pressionado nas últimas semanas a votar com Gilmar Mendes pela soltura dos Vorcaro.

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