Símbolo de maus-tratos e violência, o antigo Hospital Colônia de Barbacena encerrou oficialmente suas atividades; cerca de 60 mil pacientes morreram no local durante o funcionamento da instituição

O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), antigo Hospital Colônia, localizado em Barbacena, no interior de Minas Gerais, encerrou oficialmente suas atividades na segunda-feira (25), após a transferência dos últimos pacientes da unidade.
Com a transferência dos últimos 14 pacientes, o Hospital Colônia de Barbacena foi fechado definitivamente nesta segunda-feira (25). A unidade ficou marcada como um dos maiores símbolos de violações de direitos humanos no país.
Os últimos internos do CHPB foram encaminhados para residências assistidas, em um modelo de cuidado que prioriza a liberdade, o acolhimento e a inclusão social.

Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.
‘Holocausto Brasileiro’
O Hospital Colônia ficou conhecido nacionalmente como “Holocausto Brasileiro”, em referência ao livro da jornalista Daniela Arbex, lançado em 2013.
Na obra, a autora denuncia os maus-tratos praticados na instituição a partir de relatos de sobreviventes, ex-funcionários e pessoas ligadas à rotina do que já foi considerado o maior hospital psiquiátrico do Brasil.
Segundo a Prefeitura de Barbacena, o gesto simboliza “o encerramento de uma era marcada pelo sofrimento”, além de reafirmar “o compromisso coletivo com a construção de uma assistência em saúde mental mais humana, baseada na liberdade, no acolhimento e na defesa dos direitos humanos”.
O prefeito de Barbacena, Carlos Du (PSD-MG), afirmou durante a cerimônia que a cidade vive “um momento histórico”.
“O fechamento definitivo das portas do antigo Hospital Colônia simboliza um compromisso coletivo com a liberdade, com a inclusão e com a valorização da vida humana”, declarou.

Cadeado simbólico colocado na porta do Hospital Colônia em Barbacena.
Maus-tratos e violência institucional
O Hospital Colônia foi inaugurado em 1903. Segundo dados oficiais, cerca de 60 mil pessoas morreram na instituição ao longo de décadas de funcionamento.
O local também ficou marcado por graves violações de direitos humanos devido ao tratamento desumano imposto aos internos.
Além de pessoas com transtornos mentais, o hospital recebeu homossexuais, militantes políticos, mulheres rejeitadas pelos maridos, grávidas fora do casamento e indivíduos em situação de vulnerabilidade social.
Com isso, o Hospital Colônia se consolidou como um espaço de exclusão social, baseado em internações compulsórias e pouca fiscalização.
A instituição também foi acusada de comercializar corpos de pacientes. Segundo pesquisas citadas por Daniela Arbex no livro “Holocausto Brasileiro”, pelo menos 1.857 cadáveres foram vendidos entre 1969 e 1981 para 17 instituições de ensino médico. Em valores atualizados, cada corpo teria sido comercializado por cerca de R$ 323.
Pedido de desculpas da UFMG
Em março deste ano, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou um pedido público de desculpas à sociedade brasileira por ter adquirido, ao longo do século 20, cadáveres de pacientes do Hospital Colônia para uso em aulas de anatomia.
“Em respeito ao direito à verdade, à justiça e à memória, a Universidade Federal de Minas Gerais pede desculpas à sociedade brasileira por essa prática que aviltou os corpos e a dignidade de pessoas falecidas no Hospital Colônia de Barbacena”, afirmou a instituição em nota assinada pela então reitora Sandra Regina Goulart Almeida.
Ao comentar o pedido, Daniela Arbex afirmou que as vítimas “não alcançaram valor nem na morte”.
“Essas pessoas não foram respeitadas nem após a morte, porque os seus corpos foram vendidos sem o consentimento das famílias”, declarou a jornalista ao g1.
A autora também destacou a importância simbólica do posicionamento da universidade.
“É o primeiro pedido público de desculpas, e não é qualquer instituição. É talvez a maior universidade federal de Minas, uma das mais importantes, que teve um ato de grandeza ao reconhecer sua participação nessa barbárie, olhar para o passado e produzir algum tipo de reparação”, afirmou ao jornal.

