Escondido sob a floresta amazônica, no sul do Pará, um gigante silencioso desafia a história geológica da Terra. Pesquisadores identificaram na região de Uatumã o vulcão mais antigo conhecido do planeta, com cerca de 1,9 bilhão de anos. A descoberta colocou a Amazônia no centro de estudos internacionais sobre a formação da crosta terrestre e os primeiros continentes do mundo.
Com cerca de 22 quilômetros de diâmetro, o vulcão chegou a ter um cone de 400 metros de altura, de acordo com os pesquisadores. A atividade vulcânica teria durado aproximadamente 300 milhões de anos. Hoje, a vegetação cobre grande parte da área, mas as rochas ainda preservam sinais claros das antigas erupções.
O vulcão chamado de Amazonas começou a despertar interesse científico no início dos anos 2000. Desde então, análises aprofundadas de rochas, minerais e estruturas subterrâneas reforçaram a hipótese de que o complexo vulcânico surgiu em um período extremamente remoto, muito antes do aparecimento de diversas cadeias montanhosas conhecidas atualmente.
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Unicamp determinou o período de atividade do vulcão. A pesquisa foi publicada em 2021, na revista científica Journal of South American Earth Science.
“Com este estudo, concluiu-se que as rochas vulcânicas têm aproximadamente 1,8 bilhão de anos e estão associadas a antigas caldeiras vulcânicas. Uma caldeira vulcânica é apenas uma denominação para uma forma de relevo circular e rebaixada, por onde a lava e os gases vulcânicos eram expelidos. Um exemplo clássico de uma caldeira é a caldeira vulcânica do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos”, explica o professor e geólogo da UFC Felipe Holanda.

Vulcão mais antigo do planeta preserva rochas de 1,9 bilhão de anos
Mesmo após intenso desgaste causado por erosão, mudanças climáticas e transformações naturais da paisagem, o vulcão ainda preserva rochas do antigo sistema magmático. Os estudos apontam que condutos de lava, depósitos minerais e estruturas profundas permaneceram intactos o suficiente para permitir análises detalhadas sobre a origem da formação.
Além disso, os pesquisadores encontraram indícios de cristalização profunda nas rochas extraídas da área. As amostras sugerem que o magma circulou em fissuras da crosta terrestre primitiva, quando o planeta ainda consolidava seus primeiros blocos continentais estáveis.
A ausência de crateras e cones vulcânicos ocorre devido ao desgaste natural provocado por ciclos climáticos e processos erosivos que atuaram durante bilhões de anos.
“Como estamos trabalhando com rochas muito antigas, não temos todas as evidências dessa formação. Coletamos pistas para desvendar o que ocorreu no passado”, detalhou o pesquisador da UFC André Ueno Kunifoshita, um dos autores do estudo.

Vulcão na Amazônia revela segredos da Terra primitiva
Modelagens feitas com sensoriamento remoto indicam que o sistema vulcânico ocupa uma área muito maior do que a parte já identificada pelos pesquisadores. Grande parte da estrutura permanece soterrada sob camadas sedimentares acumuladas ao longo do tempo.
Os estudos também indicam que o vulcão influenciou diretamente a formação do relevo amazônico. Parte das bases rochosas que sustentam a floresta atual teria origem nesse antigo sistema magmático.
Além do impacto geológico, os minerais encontrados na região ajudam pesquisadores a investigar a composição química da Terra primitiva. Elementos preservados nas rochas oferecem pistas sobre a atmosfera antiga, o comportamento térmico do planeta e o processo de consolidação dos continentes.
Para os pesquisadores, o vulcão Amazonas funciona como uma espécie de arquivo geológico natural, capaz de revelar detalhes sobre os primeiros capítulos da história da Terra.
“Estas informações são relevantes porque ajudam a entender como era a região Amazônica brasileira aproximadamente 1,9 bilhão de anos atrás. Hoje, sabemos que não há vulcões ativos no Brasil, mas o Norte do Brasil era uma região com muitos vulcões ativos”, afirma Holanda.



