José Luis Rodríguez Zapatero, ex-primeiro-ministro da Espanha, foi indiciado por supostamente liderar uma rede de tráfico de influência e lavagem de dinheiro, em mais um revés para o governo de esquerda de Pedro Sánchez, assolado por escândalos de corrupção.
A Audiência Nacional, tribunal com jurisdição federal, informou nesta terça-feira (19) que a rede supostamente liderada por Zapatero lucrava com a pressão exercida sobre autoridades públicas em nome de terceiros —principalmente a companhia aérea espanhola Plus Ultra, que recebeu ajuda financeira do Estado em 2021.
Zapatero, um aliado-chave do atual primeiro-ministro, negou qualquer irregularidade em uma mensagem de vídeo divulgada nesta terça: “Quero reafirmar que toda a minha atividade pública e privada sempre foi conduzida com absoluto respeito à lei.”
Seu escritório e três outros locais foram revistados pela força-tarefa anticorrupção da polícia, informou o tribunal. O ex-primeiro-ministro foi intimado a depor no dia 2 de junho, acrescentou.
O caso aumenta a pressão sobre Sánchez, que já enfrenta uma investigação de corrupção sobre supostas propinas pagas a membros-chave de seu círculo íntimo, bem como inquéritos envolvendo sua esposa e seu irmão.
Zapatero governou a Espanha de 2004 a 2011 e supervisionou políticas marcantes, como a retirada das tropas espanholas do Iraque e a legalização do casamento homoafetivo. Ele é o primeiro premiê espanhol a ser formalmente investigado pelo Judiciário desde a transição para a democracia.
Em comunicado, o tribunal afirmou que o suposto esquema visava influenciar a aprovação de € 53 milhões (R$ 311 milhões) em ajuda pública à Plus Ultra por meio do fundo de apoio a empresas da Espanha durante a pandemia de Covid-19.
O juiz José Luis Calama apontou indícios de que a rede utilizou empresas de fachada, documentos falsos e canais financeiros paralelos para ocultar a origem e o destino de fundos no valor de € 1,95 milhão (R$ 11,4 milhões).
Pagamentos e contratos ligados à Plus Ultra —que membros da oposição espanhola afirmam ter vínculos com o regime venezuelano— e a outras empresas foram canalizados por meio de uma rede corporativa controlada por um intermediário, informou o tribunal. Os fundos teriam chegado posteriormente a Zapatero e a uma empresa ligada às suas filhas.
A porta-voz do atual governo Elma Saiz disse aos repórteres que o gabinete está acompanhando o caso com “calma, confiança e respeito fundamental por um princípio que sustenta nosso sistema jurídico: a presunção de inocência”.
O Partido Socialista afirmou que Zapatero foi pioneiro em políticas progressistas e que a direita e a extrema direita nunca lhe perdoaram por isso.
O Partido Popular, da oposição conservadora, tem criticado repetidamente os laços empresariais de Zapatero na Venezuela após sua saída da política. “Zapatero é a musa do ‘sanchismo’ [como se referem ao governo de Pedro Sánchez] e essa musa foi indiciada pela Audiência Nacional”, afirmou em comunicado. “O princípio que vincula os dois últimos presidentes de governo socialistas da Espanha é a corrupção”, disse o partido.

