O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chegou a Pequim na noite desta terça-feira (19), no horário local, começo da tarde do Brasil no mesmo dia, para uma visita de Estado quatro dias após a partida do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
É a primeira vez que Pequim recebe, no mesmo mês, os mandatários dos dois países, o que é visto por analistas como uma forma de a China se posicionar como imparcial e como força diplomática decisiva em meio à polarização mundial.
Artigo publicado pela mídia estatal chinesa Global Times afirma que o país está se consolidando como “ponto focal da diplomacia global”.
O russo viajou à capital chinesa a convite do líder do regime, Xi Jinping, por ocasião dos 25 anos do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa. Este ano marca também o trigésimo aniversário do início das relações estratégicas entre os países.
Putin foi recebido no aeroporto da capital pelo chanceler chinês, Wang Yi, e se encontrará com Xi na manhã de quarta-feira (20), no horário local.
Segundo comunicado do Kremlin, os mandatários vão discutir “assuntos bilaterais da atualidade, maneiras de fortalecer ainda mais a parceria abrangente e a cooperação estratégica” e “trocarão opiniões sobre questões internacionais e regionais importantes”.
Em pronunciamento por ocasião da viagem, Putin afirmou que as relações entre os países atingiram “um nível verdadeiramente sem precedentes”. Chamou Xi de amigo de longa data e declarou que as nações “estão expandindo ativamente seus contatos nas áreas da política, da economia e da defesa”.
A guerra na Ucrânia deve ser um dos principais assuntos, embora as chancelarias dos países não tenham sinalizado que o conflito estará em destaque na pauta. O conflito, porém, será pano de fundo das demais discussões, uma vez que Moscou tem a China como principal aliado econômico em meio às sanções impostas pelo Ocidente após a incursão no país vizinho em 2022.
Outro tema será a cooperação energética, que tem sido um dos principais motores das relações bilaterais e se tornou ainda mais relevante em decorrência da guerra no Irã, devido ao risco que o conflito imputa à matriz energética chinesa por causa do fechamento do estreito de Hormuz.
A maior parte do petróleo que passa pelo trecho tem como destino os portos chineses. Pequim, porém, mantém uma reserva bilionária da commodity, o que a afasta do risco imediato, mas leva líderes chineses a buscar alternativas de abastecimento.
Dados do Kremlin indicam que as exportações de petróleo russo à China cresceram mais de um terço no primeiro trimestre de 2026.
O gasoduto Poder da Sibéria 2, que deve transportar cerca de 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano à China, também será discutido em detalhe, segundo Moscou. Em março, na publicação do seu 15º Plano Quinquenal, Pequim afirmou que os trabalhos da fase inicial do projeto irão prosseguir.
A construção do empreendimento, com 2.600 km de extensão, é uma espécie de seguro de longo prazo para a China, uma vez que o conflito no Irã e instabilidades no Oriente Médio também ameaçam o fornecimento de gás natural liquefeito. O duto é visto como uma alternativa terrestre segura em meio aos embates que causam interrupções no trânsito marítimo.
Embora a guerra no Irã tenha entrado na pauta da reunião entre Trump e Xi na semana passada, os comunicados de Pequim e Washington não indicam que questões relacionadas à Rússia tenham sido debatidas com profundidade entre os dois líderes.
O foco principal, além do conflito no Oriente Médio, foram negócios, intercâmbio comercial e a questão Taiwan, com o chinês afirmando que esse é o ponto mais sensível da relação entre os países. A ilha deve aparecer de forma tangencial nos diálogos entre Putin e Xi, uma vez que a Rússia apoia o princípio de que Taiwan é parte inalienável do território chinês.

