O recuo de 0,67% no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), aponta que a restrição dos juros altos está desacelerando a economia aos poucos, embora a atividade se mostre bastante resiliente, comprovada pelo avanço de 1,3% no primeiro trimestre, comparado ao trimestre anterior.
Este resultado de março veio mais fraco do que o esperado – o mercado projetava uma queda de 0,40% – e reforça a percepção de que a economia brasileira começou a perder fôlego no fim do primeiro trimestre.
Olhando à frente, o Goldman Sachs vê a economia nacional enfrentando forças opostas: de um lado, a atividade continuará sendo aquecida por transferências fiscais do governo a famílias de baixa renda e pelo mercado de trabalho, com renda real disponível crescendo 6,5% na comparação anual em março. Do outro lado, esse impulso será mitigado pelas “rígidas condições financeiras e monetárias domésticas”, além da inflação em alta e do alto nível de endividamento das famílias.

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Serviços e indústria: o que puxou a queda do IBC-Br?
A retração no fechamento do trimestre foi um movimento geral, com recuos em todos os setores analisados.
| No mês (m/m-1) | No trimestre (t/t-1) | |
| IBC-Br | -0,7 | 1,3 |
| IBC-Br Agropecuária | -0,2 | 1 |
| IBC-Br Indústria | -0,2 | 1,3 |
| IBC-Br Serviços | -0,8 | 1 |
| IBC-Br Impostos | -0,2 | 1,6 |
| IBC-Br ex-Agropecuária | -0,9 | 1,2 |
Leonardo Costa, economista do ASA, avalia que o recuo foi disseminado, com destaque negativo para os serviços, que retraíram 0,79% – o setor representa cerca de 70% da atividade econômica do país. “Os indicadores antecedentes vieram mais fortes em janeiro e fevereiro, com a queda de serviços puxando o resultado negativo de março”, avalia Costa.
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Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, aponta uma retração ainda mais expressiva na comparação mensal ao excluir o desempenho do agronegócio. Sem considerar o agro, a queda foi de 0,9%. Segundo o economista, com o resultado do IBC-Br, o carrego deixado para o próximo trimestre é de -0,16%.
Acomodação do crescimento
Para Rafael Perez, economista da Suno Research, março refletiu uma acomodação do crescimento após a forte expansão nos dois primeiros meses de 2026. Segundo ele, parte desse movimento reflete a elevada base de comparação e os efeitos da política monetária restritiva. Contudo, Perez avalia que os serviços foram amparados no trimestre pelo crescimento da renda das famílias e pelos estímulos recentes implementados pelo governo.
Na indústria, o destaque positivo permaneceu com o forte desempenho do setor extrativo de petróleo e gás, que compensou a fraqueza observada em segmentos mais sensíveis ao ciclo de juros.
Avanço trimestral é o maior desde 2024
Mesmo com os sinais de enfraquecimento em março, Rodolfo Margato, economista da XP, chama atenção para a alta trimestral de 1,3% no 1º trimestre de 2026 ante o 4º trimestre de 2025. Segundo Margato, este é o melhor desempenho desde o 3º trimestre de 2024.
Margato reforça que a renda real disponível às famílias continua em expansão. Além disso, iniciativas adicionais no campo do crédito, incluindo o programa de renegociação de dívidas das famílias (Desenrola 2.0), devem trazer alívio nos próximos meses. “Segundo nossas estimativas, o pacote de estímulos pode adicionar mais de 1,0 p.p. ao crescimento do PIB neste ano”, afirma.
Expectativas e cautela do Banco Central
O panorama final, contudo, exige cautela das autoridades monetárias. Para Pablo Spyer, a leitura dos dados feita pelo mercado é ambígua. Se, de um lado, uma atividade mais fraca poderia aliviar a pressão sobre a inflação e abrir espaço para juros menores, de outro, o Boletim Focus trouxe uma leve piora das expectativas inflacionárias. “A economia dá sinais de desaceleração, mas a inflação ainda incomoda. Isso mantém o Banco Central em modo de cautela e reforça o cenário de juros elevados por mais tempo”.
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Esse sentimento é compartilhado por diversos especialistas. Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike, alerta que a deterioração das expectativas de inflação reduz o espaço para queda de juros. Para ele, o Banco Central deve adotar uma postura mais cautelosa para preservar sua credibilidade.
João Kepler, CEO da Equity Group, faz coro à necessidade de prudência ao observar a combinação entre inflação resistente, Selic alta e PIB positivo. “Isso mostra que a economia brasileira está em um ponto delicado: não está parada, mas também não oferece conforto suficiente para o Banco Central acelerar uma virada monetária”, avalia Kepler.
Para definir os próximos passos, a atenção se voltará para a composição da inflação. Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, adverte que o mercado mostra que a queda dos juros não será linear e que o indicador mais decisivo será a inflação de serviços, porque ela mostra a força da demanda doméstica e o quanto o juro alto está conseguindo moderar consumo e crédito. Se os núcleos da inflação persistirem resistentes, o mercado poderá se frustrar com a velocidade dos cortes, segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
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Projeções para 2026
De acordo com as projeções dos bancos e casas de investimento, o PIB deve manter o viés de crescimento no acumulado de 2026, porém o aperto monetário será mais rígido e duradouro no enfrentamento aos preços.
Segundo o Goldman Sachs, o carrego estatístico deixado até o momento para o PIB de 2026 é positivo em 1,15%. A XP projeta crescimento de 2,0% no ano, enquanto a Suno Research estima uma expansão de 1,8%.
O Departamento de Pesquisa Econômica (DPEC) do Banco Daycoval está um pouco mais conservador, prevendo o PIB de 2026 em 1,7%.
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Já a persistência inflacionária alterou o radar de juros. A mediana das expectativas do relatório Focus para a Selic ao fim de 2026, divulgado nesta segunda-feira, subiu para 13,25%, acompanhando a alta nas projeções de inflação. No Focus, o IPCA de 2026 saltou para 4,92% (acima do teto da meta).

