Pela primeira vez, um presidente americano visita a China em desvantagem

Sete presidentes dos Estados Unidos visitaram a China em compromissos oficiais, segundo o Departamento de Estado americano. O primeiro, Richard Nixon, chegou ao país em 1972 em meio à Guerra Fria, em um movimento de aproximação para fazer contraponto à União Soviética. A visita foi descrita como o pavimento da normalização diplomática entre os países anos depois.

Após o republicano, somaram-se Gerald Ford, Ronald Reagan, Bush pai, Bill Clinton, Bush filho, Barack Obama e, então, Donald Trump. Apesar da lista de líderes americanos que fizeram o mesmo movimento, o atual presidente é o único que chega ao país em desvantagem, uma dissonância que pesa até sobre o próprio passado.

Quando viajou à China pela primeira vez, em 2017, chegava em clara primazia. Foi recebido com pompa e circunstância em um evento que os próprios chineses chamaram de “state visit plus”, algo como uma visita de Estado reforçada.

Pequim, sem entender ao certo qual seria a abordagem diplomática do então forasteiro em seu primeiro governo, atuou para agradar. E a recepção, aos olhos dos governos e analistas, foi grandiosa.

O regime chinês seguirá recebendo chefes de Estado americanos com louvor —afinal, pesa sobre a relação sua mais importante troca comercial e política. Dessa vez, porém, com uma recepção mais modesta e até horizontal. Trump vem em condição excepcional, e Xi sabe disso.

Em casa, o republicano vive pressão especial pelas eleições de meio de mandato, em novembro, e precisa voltar para Washington com vitórias econômicas para apresentar aos eleitores. O país vive um momento em que a carne bovina chega a preços recordes, os preços dos combustíveis sobem e, pela primeira vez em três anos, a inflação consome ganhos salariais.

Além de enfraquecer a própria economia, a guerra no Irã tem também causado a maior instabilidade no preço do barril de petróleo em anos com o fechamento do estreito de Hormuz.

A própria China se vê numa sinuca, visto que sua matriz energética depende do óleo que passa pelo trecho. E Trump, sabendo disso, quer convencer os chineses a pressionar Teerã pela reabertura, mesmo tendo dito que não precisaria da ajuda de Pequim para encerrar o conflito. Uma reserva de petróleo bilionária, porém, os afasta do desespero.

O americano leva na comitiva uma série de CEOs com o objetivo de fechar negócios e diminuir o déficit econômico com a China, que, em 2025, foi de US$ 202 bilhões. Tem ao seu lado até seu aliado intermitente, Elon Musk, com quem protagonizou uma briga pública em junho do ano passado.

Precisa ainda garantir o acesso dos magnatas da tecnologia aos ímãs de terras raras e, mais que isso, consolidar uma cooperação que faça Xi pensar duas vezes antes de atirar com seu canhão, o rigoroso controle de exportação sobre terras raras. A medida poderia, mais uma vez, desestabilizar indústrias por todo o mundo —especialmente as americanas, especialmente as destes empresários.

Trump coloca a China em posição confortável para pedir concessões em relação a Taiwan. No encontro entre os líderes em outubro do ano passado, na Coreia do Sul, o americano confirmou que a ilha fez parte da discussão. Agora, seu secretário de Estado, Marco Rubio, disse que a questão voltará a ser tema da conversa.

Enquanto isso, o chanceler chinês, Wang Yi, deixou claro que o problema é o principal risco de instabilidade na relação entre as potências.

Para os EUA, se Trump conseguir passar por esta lombada apenas com jogo de cintura, sem promessas ou acordos, o saldo é positivo. Já Pequim parece disposta a buscar ganhos políticos reais em relação a Taiwan, pedindo que Washington mude o posicionamento de não apoiar a independência da ilha para a afirmação de que é contrário a ela. Um jogo de palavras que tem deixado Taipé em alerta.

Analistas mais audaciosos dizem que Xi pode até pedir o fim das vendas de armas —um pleito menos provável de ser solicitado ou concedido.

Como disse o pesquisador Richard McGregor, estudioso do leste asiático no Instituto Lowy, não é como se Trump estivesse em condições de súplica. Chega, porém, ao seu maior adversário político e comercial com menos recursos do que seus antecessores e um poder de barganha ainda menor.

Resta saber se conseguirá voltar para Washington sem ter transformado a sede de vitórias econômicas em concessões políticas.

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