A China confirmou na segunda-feira (11) a viagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para encontro com o líder chinês, Xi Jinping, em Pequim. A reunião, mais um passo da frágil trégua comercial entre os países, deve servir para projetar aparência de estabilidade e reduzir o risco de nova escalada entre as duas maiores economias do mundo.
A visita de Estado, que ocorrerá nas próximas quinta (14) e sexta (15), não carrega a expectativa de grande anúncio central.
De um lado, o americano viaja acompanhado de CEOs na tentativa de fechar negócios e reduzir o déficit comercial. Levará ainda seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, para convencer Pequim a pressionar o Irã pela reabertura do estreito de Hormuz —embora publicamente tenha dito que não precisa da ajuda da China para encerrar o conflito.
Do outro lado, o chinês deve levar à mesa a questão Taiwan, os controles de exportação de Washington a semicondutores avançados e a disposição de fechar acordos com alguns empresários.
O encontro também não deve produzir mudanças estruturais na relação bilateral, segundo Chong Ja Ian, professor de ciência política na Universidade Nacional de Singapura. O especialista, que estuda as relações entre os dois países, afirma que ambos esperam vitórias simbólicas para apresentar ao público doméstico e que o foco deve recair sobre questões comerciais e econômicas.
“Não há nada que realmente incentive um grande avanço por parte de nenhum dos lados nem que promova um compromisso com algum entendimento ou concessão significativa. Está claro que nenhum dos dois deseja uma escalada fora de controle”, diz.
Declarações de autoridades chinesas e americanas indicam ainda que o objetivo comum é construir terreno para prolongar a trégua tarifária alcançada no último encontro, em outubro, com validade de 12 meses.
Em um dos contatos diplomáticos mais relevantes na preparação da reunião, o chanceler Wang Yi disse por telefone ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, que os dois lados devem “manter a estabilidade conquistada com muito esforço”.
O chefe da diplomacia chinesa fazia referência aos resultados obtidos após o encontro em Busan, na Coreia do Sul, quando Trump e Xi definiram a redução das tarifas impostas pelos EUA a produtos chineses, e Pequim recuou do agressivo controle de exportação sobre terras raras —uma medida que desestabilizou a indústria mundial em diversos setores.
Na mesma ligação, Wang sublinhou que o maior risco das relações sino-americanas é Taiwan. Dias depois, Rubio confirmou que o tema deve ser um dos tópicos da conversa entre os líderes.
Os objetivos de Xi na reunião, segundo Richard McGregor, pesquisador do leste asiático no Instituto Lowy, são mais complexos do que os buscados pelo presidente americano. “Trump parece enxergar esse encontro inteiramente por uma ótica econômica ou comercial. Ele quer sair dali com acordos sobre exportações americanas, como aeronaves e soja”, diz.
“A China buscaria qualquer tipo de concessão política que consiga arrancar de Trump sobre Taiwan, real ou simbólica. Acho também que gostam da imagem de o presidente americano ir até eles, não o contrário.”
O americano, como já sinalizado por seus secretários, também vai colocar a guerra do Irã na mesa, na expectativa de que a China use sua influência sobre Teerã e a própria necessidade de abastecimento energético para pressionar o regime a reabrir o estreito de Hormuz —rota marítima praticamente fechada desde o início do conflito, há quase três meses.
Pequim, porém, tem se mostrado pouco disposta a gastar capital diplomático real para remediar o que considera um erro americano. Embora tenha pedido ao Irã a reabertura do estreito, já que o fechamento também ameaça sua segurança energética, o regime tem atuado como mediador distante, com pronunciamentos frios e suposta imparcialidade.
Wang Yi, em encontro com seu homólogo iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que o fim do conflito é “imperativo”, ao mesmo tempo em que declarou “apoio ao Irã na salvaguarda de sua soberania e segurança nacionais”.
A guerra, responsável pelo adiamento da agenda anteriormente prevista para março, seguirá como pano de fundo em um momento em que Trump chega à China com seu país enfraquecido pelo conflito, segundo McGregor.
A relação entre os dois países, antes ditada por Washington, vive agora seu momento mais horizontal. “Ele não chega exatamente como um suplicante, mas também não chega como o líder da única superpotência mundial”, afirma.

