
O piauiense José Evandro Belarmino de Farias, que é motorista do Ministério da Defesa encontrou no quintal da casa onde mora em Brasília aquilo que pode ser considerado um presente de Natal atrasado.
Ele se assustou quando o filho adotivo apareceu com R$ 12 mil embrulhados em papel de presente. O dinheiro foi encontrado dentro do quintal da casa da família, no Cruzeiro Velho, no início da tarde do dia 29 de janeiro. Mesmo afirmando que a quantia poderia ajudá-lo a quitar dívidas, o homem de 67 anos decidiu entregá-la à delegacia.
Nesta quinta (07/02) a polícia confirmou que pretende devolver a quantia ao piauiense, caso não encontre pistas de quem deixou o dinheiro, observando as câmeras da rua e se caso fique comprovado que a origem do dinheiro não é ilícita (não provém de algum assalto).
José comentou sobre o fato de devolver a quantia à polícia. “Não tinha porque ficar com ele, esse dinheiro não é meu”, explica. “Eu ainda não sei como veio parar aqui, não sei se seria um presente para mim ou qualquer outra coisa, mas achei que o certo era entregar para a polícia. Não quis nem mexer”, completa o motorista piauiense.
A vontade de fazer a coisa certa superou até os pedidos do adolescente, de 13 anos, para comprar um computador e o desejo de trocar o carro da família, que tem 14 anos e está avaliado em R$ 8 mil. Com a quantia, Farias acha que também seria possível pagar as dívidas do cartão de crédito e pensar em uma nova casa. O imóvel onde ele, a mulher e o filho vivem é funcional e foi cedido pelo ministério enquanto ele estiver trabalhando. “Daqui a dois anos eu vou me aposentar. Não temos para onde ir. Isso é o que mais me preocupa no momento. Se esse dinheiro me ajudaria? Com certeza. Mas eu não posso contar com uma quantia que não é minha, não é mesmo?”, questiona.
SAINDO DA TERRA QUERIDA
Em Brasília desde 1973, depois de passar cinco dias em um caminhão pau de arara, o motorista conta que deixou o interior do Piauí com a ex-mulher e o primeiro filho para “fugir das necessidades”. Ele terminou o ensino médio no Distrito Federal, mas não conseguiu ingressar na faculdade de engenharia. “Era o que eu queria, mas não tinha como. Precisava trabalhar. Tivemos cinco filhos, então não tinha opção”, disse. “Aqui eu já fiz de tudo: taxista, estoquista, trabalhei em almoxarifado. Aí veio a oportunidade no ministério e eu passei.”
O salário, que chega a R$ 3 mil com as gratificações, é usado na compra de remédios para ele e a atual mulher, que é dona de casa, na mensalidade da escola do filho e na manutenção da residência. O imóvel tem três quartos, dois banheiros, sala, cozinha, quintal e garagem.
Segundo Farias, muitos vizinhos condenaram a atitude dele. “Eles disseram que se tivesse caído na casa deles, eles iriam aproveitar. Mas eu não vejo nada demais no que fiz, não me vejo como um herói. É o que qualquer pessoa deveria ter feito”, afirma.
INVESTIGAÇÃO
De acordo com o motorista, o embrulho foi achado entre as plantas do quintal da casa, a cerca de cinco metros do portão. Ele acredita que alguém tenha arremessado o pacote.
O delegado Mário Henrique Garcia Jorge informou que as células foram periciadas e são verdadeiras. “Agora vamos apurar, verificar a origem, tentar descobrir em que situações esse dinheiro chegou lá.”
Uma das alternativas, apontou o delegado, é tentar rastrear onde e por quem as notas foram sacadas. No pacote havia 100 cédulas de R$ 20 e 200 cédulas de R$ 50. O caso está sendo apurado pela 3ª Delegacia de Polícia.
POLÍCIA PODE DEIXAR O DINHEIRO COM QUEM ENCONTROU
Os dois moradores da região do Cruzeiro Velho, no Distrito Federal, que encontraram pacotes de dinheiro nos quintais de suas casas e os entregaram à polícia podem acabar ficando com os valores. O diretor-geral da Polícia Civil, Jorge Xavier, disse que se a investigação confirmar que o dinheiro não tem origem ilícita, os moradores poderão receber as quantias de volta.
De acordo com a Divisão de Comunicação da Polícia Civil, uma investigação foi aberta para apurar a origem do dinheiro, a localização do proprietário e também o motivo que levou a pessoa a deixar o embrulho no quintal das duas casas – um dos pacotes tinha R$ 12 mil e o outro, R$ 7,6 mil.
O delegado Mario Henrique Jorge, que apura os casos, afirmou que a investigação pretende descobrir primeiro a origem do dinheiro. “Nós levantaremos todas as hipóteses. Estamos buscando a origem do dinheiro. Não há uma lógica em casos como este. Mas loucura pode ter em qualquer lugar”, disse.
Vizinho da casa onde o segundo pacote contendo R$ 7,6 mil foi encontrado, o policial civil Leandro de Oliveira disse acreditar que a origem do dinheiro é ilícita. “Alguém furtou e jogou o pacote na casa para se livrar de algum problema.” Se o embrulho aparecesse em seu quintal, Oliveira disse que entregaria para a polícia. “Eu devolveria, pois não seria certo ficar com um dinheiro que não é meu”, afirma.
A dona de casa Tânia Benevides, que mora na mesma rua onde o primeiro pacote com R$ 12 mil foi encontrado, agiria de maneira diferente. “Eu ficaria com o dinheiro com certeza, estou sendo bem sincera. Não ia falar nada para ninguém.”
Para Tânia, alguém da religião espírita doou o dinheiro aos moradores do bairro. “Como os espíritas não pagam dízimo, acho que ele deixou o dinheiro para ajudar”, conta.
VÍDEOS PODEM AJUDAR A REVELAR MISTÉRIO
Câmeras de segurança em uma rua do Cruzeiro Velho, no Distrito Federal, onde pacote de dinheiro apareceu em uma casa podem ajudar a polícia a obter pistas sobre quem deixou o “presente” ao moradores. Rua têm câmeras em três pontos, mas as imagens, no entanto, não haviam sido requisitadas até o início da noite desta quinta (07/02).
Donos das casas onde as câmeras de segurança estão instaladas disseram estar dispostos a ceder as imagens à polícia, caso sejam procurados. Na rua onde fica a casa em que foi encontrado um dos pacotes, há câmeras instaladas na entrada, na saída e no beco que existe na via.
G1 DF

