MILAGRES: Após vinte anos, coveiro deixa função e revela mágoa

“É uma tristeza muito grande a gente saber que só vai ganhar alguma coisa quando morre uma pessoa”, disse Seu Aloísio Fernandes (Foto: Klébio Leite/Agência OKariri)

Agência OKariri, por Klébio Leite

Ele é, sem dúvida, uma das pessoas mais conhecidas de Milagres. Afinal, que por vinte anos exerceu a função de coveiro do Cemitério São Miguel, o único da cidade. Este ano, se dizendo cansado e especialmente magoado, o Senhor Aloísio Fernandes entregou as chaves do campo santo na Casa Paroquial e aposentou a pá que usava para abrir as covas.

Em entrevista exclusiva ao Portal OKariri.com, ele contou sobre o inicio de seu trabalho no cemitério e o descompromisso das administrações municipais. “Fui entregar as chaves ao Padre e sair sem direito a nada. Um pacote de sal não me deram de gratificação”, desabafou.

Ele também disse ser difícil encontrar um coveiro honesto para substituí-lo. “A vida no cemitério para quem entende e quer trabalhar com honestidade não é fácil”, ensinou o ex-coveiro, lembrando que nunca brigou com ninguém no exercício de sua função.

Seu Aloísio contou do dia que teve que enterrar um tio e para tanto teve que desenterrar os restos mortais do próprio pai, segundo ele foi a barreira mais pesada que enfrentou ao longo dessas duas décadas. “A gente enterra tanto companheiro, tanto amigo de infância, mas eu nunca pude acompanhar o enterro dessas pessoas”, lamentou.

Na conversa, Seu Aloísio também falou das dificuldades que enfrentava para realizar os sepultamentos, especialmente no período de inverno.

Questionado se Milagres já precisava de um novo cemitério, ele disse que não e que o campo santo de Milagres é o mais organizado da região. E diz por que o cemitério nunca vai estar superlotado. “Em um mesmo túmulo eu já fiz quarenta sepultamentos”, revela.

Falando sobre os valores que recebia para desempenhar a função de coveiro, Seu Aloísio disse que com a chegada das funerárias a situação melhorou. “A maioria dos enterros passou a ser pelas funerárias. Quando não era pela funerária o camarada ia embora e eu ficava falando sozinho. Recebia de um, ficava dois sem receber. Com as funerárias, elas mandavam a ordem e quando acabava o enterro eu ia receber”, contou.

No final da conversa, Seu Aloísio Fernandes revelou o motivo de sua contrariedade. “Trabalhei vinte anos no cemitério e nunca recebi ajuda de ninguém. Até na minha saída não me ofereceram nem uma feirinha para comer por quinze dias”, finalizou.

Ouça a íntegra da entrevista que o Portal OKariri.com fez com o Seu Aloísio Fernandes, ex-coveiro do Cemitério São Miguel de Milagres/CE.

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