
Três meses se passaram desde que um estudante de 16 anos foi espancado até desmaiar por cerca de 10 colegas de escola, no bairro Henrique Jorge, em Fortaleza. Entretanto, até hoje os responsáveis pela agressão não foram punidos.
Após o crime, a Secretaria Estadual da Educação (Seduc) abriu procedimento disciplinar para descobrir os autores da agressão e investigar a conduta de um professor, que teria incitado os alunos à violência. Mas a apuração não foi concluída. O educador, que estava em estágio probatório, continua afastado das funções. Já o garoto agredido voltou a estudar, mas ainda sofre com as sequelas.
O ato infracional ocorreu no último dia 30 de janeiro, após as aulas do turno da tarde, na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (E.E.F.M.) Professor Paulo Freire, na avenida Fernandes Távora. Em entrevista ao O POVO, um estudante de 14 anos, que também foi agredido, afirmou que um professor de Educação Física teria causado uma discussão, em sala de aula, ao dizer que ele e o colega formavam um “lindo casal”. As vítimas cursam o 8º ano do ensino fundamental.
“Isso deu origem a uma discussão na sala. Um garoto começou a me xingar, falar da minha mãe, e eu respondi. Ele passou a me ameaçar e disse que me pegaria lá fora”, contou o jovem, na ocasião. Na saída, o estudante foi agredido por vários alunos. Um colega do garoto, de 16 anos, tentou impedir o linchamento e acabou apanhando ainda mais.
Após a agressão, o jovem foi levado para uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e depois transferido para o Instituto Doutor José Frota (IJF). Diagnosticado com coágulo na cabeça, o garoto ficou 11 dias internado. O tratamento foi concluído no Hospital Batista Memorial.
Sequelas da agressão
Na manhã de ontem, a mãe do garoto, de 38 anos, foi à Perícia Forense do Ceará (Pefoce) acompanhada do filho, que passaria por nova perícia. O jovem afirmou, por meio da mãe, que ainda sente dores de cabeça e desequilíbrio, em decorrência dos golpes sofridos.
“Quando ele dorme sobre o lado da cabeça afetado, amanhece com o rosto inchado. Não deixa ninguém tocar. A visão também foi afetada. Ele passou a usar óculos”, disse a mãe. Ela comentou que o filho voltou a estudar na mesma escola por não ter condições de transferi-lo para outro lugar.
“Enquanto ele ficou internado, tive que sair do emprego para ficar com ele. Ainda não consegui trabalho, mas as contas continuam chegando. Já cortaram minha água, mas consegui parcelar. O pai dele ganha pouco e não dá pra assumir tudo. Mas o importante é que estamos com vida”, concluiu a mãe, que é ex-atendente de loja.
INVESTIGAÇÃO POLICIAL – Inquérito policial que apura a responsabilidade de um professor de Educação Física no caso de agressão aos estudantes concluiu que o docente incitou a violência entre os alunos. Apesar de o crime ter sido praticado pelos adolescentes, as investigações do 27º Distrito Policial (DP), no bairro João XXIII, apontam que o educador teria motivado a agressão.
De acordo com a delegada substituta do 27º DP, Mila Toscano, várias testemunhas foram ouvidas. Dentre elas, as vítimas, os alunos e a direção da escola. “Constatamos que ele (o professor), de fato, havia incitado os alunos com brincadeira de mau gosto. Concluímos o processo e ele já foi encaminhado para a Justiça, quando será distribuído entre as Varas Criminais”, disse a delegada, que não se recorda quais medidas de punição contra o professor foram solicitadas à Justiça.
A assessoria de imprensa do Fórum Clóvis Beviláqua não localizou o processo. Já o procedimento instaurado na Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), que investiga o ato infracional cometido pelos alunos, também foi concluído. O documento foi remetido para uma das varas da Infância e da Juventude da Comarca de Fortaleza. O processo corre em segredo de Justiça.
O Povo